Quem matou o mundo? – O aviso de Mad Max

Desde o lançamento do filme, há inúmeros textos na internet falando de todas as mensagens passadas pelo filme. Na crítica do blog, menciono algumas delas, mas agora gostaria de focar em uma questão específica.

Quem matou o mundo?

Essa é uma pergunta repetida em vários momentos do filme. Apesar de Mad Max não ter uma resposta direta, acredito que vários elementos no filme apontam culpados.

O filme pega elementos da nossa sociedade atual, exagera em certos pontos e se torna um aviso para todos nós, o que acontece em Mad Max não é específico para o campo da ficção, são representações da nossa realidade. Toda a ficção reflete de certa forma aspectos da nossa sociedade, mas aqui é um recado mais direto e urgente, George Miller e sua produção gritam um “acorda!” para a audiência, mostrando que muitas das coisas que tanto preservamos na nossa sociedade podem matar o mundo. Pode ser que não crie um universo pós apocalíptico com desertos e corridas de carro, mas que podem nos destruir.

Spoilers do filme abaixo.

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O mundo de Mad Max é uma ficção que mostra inúmeros elementos da nossa sociedade é hoje em dia. Apesar de alguns pontos serem exagerados, não há nada que seja extremamente absurdo. Claro que uma perseguição de carro não precisa de um guitarrista que solte fogo, mas pensando em todos os elementos de Mad Max, não há nada tão fora da nossa realidade.

Então vamos esquecer um pouco o lado fantasioso de Mad Max e descrever a sociedade. É um mundo pós apocalíptico em que as cidades reduziram consideravelmente. Existe uma minoria privilegiada no poder, em sua maioria constituída de homens cis brancos (não posso afirmar com toda certeza, mas não me surpreenderia nada se eles fossem héteros também) que “cuida” das pessoas que vivem ali. Esse “governo”, vamos chamar assim, se diz misericordioso, ele podia guardar a água toda para si, mas de vez em quando abre os portões. O governo se aproveita da mão de obra da maioria das pessoas, dá alguma coisa para seu povo e em nenhum momento tem a intenção de melhorar a vida deles. Uma vez que essas pessoas parem de ser dependentes desse sistema, o poder dessa minoria ficaria prejudicado, então não é interessante fazê-lo.

Além disso, a religião tem um grande papel na vida das pessoas. Através do fanatismo, o líder consegue convencer seus soldados a fazer o que ele quiser, apenas com a promessa de um paraíso. Quanto aos papéis de gênero, os homens possuem os cargos mais altos, eles que têm a chance de conhecer o tal do paraíso, eles que são louvados quando algo dá certo… Podemos pensar que muitos desses homens não fazem parte da minoria no poder e também são explorados pelo sistema como um todo, mas é um sistema patriarcal, ser um homem já lhe dá muitas vantages (o filme não fala sobre pessoas trans, mas podemos ver indícios no filme de que também é um sistema transfóbico, portanto apenas os homens cis que possuem o privilégio descrito acima). As mulheres são objetos, elas podem procriar e servir de escravas sexuais, podem fornecer leite para a nação ou podem ficar com o resto das pessoas mais pobres.

Por último, mas não menos importante, é uma sociedade que põe um peso muito alto em objetos que podem fazer guerra. Armas e gasolina são bem valiosos e sem eles, nenhuma das lutas e demonstrações de poder acontece.

Isso é uma descrição do filme, mas quase parece uma descrição da nossa sociedade.

A questão é que Mad Max pega vários elementos da nossa sociedade e os coloca como peças que fazem o sistema de Immortan Joe ser tão falho. Mad Max usa um mundo fictício para nos mostrar o que nós estamos vivendo e coloca esse padrão como vilão, apontando-o como um culpado da nossa sociedade falha e injusta.

A maioria das pessoas no poder atualmente são homens cis, brancos e héteros. Por mais que em algumas áreas o número pode estar igualando e nesses últimos tempos certas mudanças foram alcançadas, mulheres ainda são minorias em posições de poder, isso porque nem falamos de representação negra ou LGBT+. Não é que a minoria que está no poder seja mais eficiente, mas a sociedade dá chances pequenas para pessoas fora do padrão chegarem lá. Observe o filme, quantas mulheres estão dirigindo na estrada? Uma, Furiosa, ela é a exceção.

Immortan Joe e seu pequeno grupo são os que possuem acesso à maior parte das riquezas desse novo mundo enquanto a maioria fica aos pés da montanha, implorando uma gota de água. De acordo com uma pesquisa feita em 2013, menos de 1% da população possui mais de 40% de toda a riqueza mundial. Para um Immortan Joe ser muito rico, muitas pessoas precisam sofrer na Citadela.

A questão da religião é um assunto mais delicado, é desonesto colocar todas as religiões no mesmo saco e acreditar que a religião católica tem o mesmo poder que a umbanda na nossa sociedade. Também não dá pra falar que todo o lugar é igual porque cada país possui relações diferentes com religiões.

No caso de Mad Max, a religião que louva o V8 é a predominante e, pelo jeito que a sociedade é, não acho que há qualquer outra opção se não essa. Assim como todos os aspectos apresentados, o fanatismo religioso também é criticado. Immortan Joe talvez nem acredite em Valhalla, mas ele sabe que todos os seus guerreiros acreditam, então ele ilude seus soldados com essa ideia, usando sua fé para manipulá-los. A religião é usada como método de controle.

Voltando para o Brasil, por mais que seja um Estado Laico, a religião é um dos pilares. Qual presidente consegue ser eleito sem apoio religioso? Quantas normas foram colocadas na sociedade baseada em religiões específicas? Aborto ainda não é permitido por causa de um tabu que veio da religião, levamos anos para que o casamento entre pessoas do mesmo gênero fosse aprovado… Por que um Estado Laico possui uma bancada evangélica? Por que a religião de alguns precisa interferir na vida de outras pessoas que nem são dessa religião?

A questão de gêneros ainda é uma coisa que muitas pessoas insistem que não existe. Em Mad Max, vemos quais são os papéis “permitidos” para as mulheres. Furiosa é a exceção, mas ela deve ter feito mais que o dobro de esforço que os outros para chegar ali.  Em geral, mulheres são objetos, propriedade de Immortan Joe. As esposas gritam “Nós não somos coisas!” porque estão cansadas da situação.

A nossa sociedade não é tão diferente, talvez nós não coloquemos cinto de castidade nas mulheres, mas sempre que tem a chance, a sociedade as julga por suas sexualidades. Já cansamos de ouvir que “aquela é rodada”, entre outros termos muito piores para mulheres que se relacionam com várias pessoas.

Existem papéis específicos para a mulher, ainda ouvimos o tal “mulher não pode isso, não pode aquilo, tem que isso e tem que aquilo”. Mulheres ainda são criticadas quando suas escolhas vão contra o desejo do homem, as mulheres lésbicas e bissexuais são representadas para o consumo masculino e os estupros possuem números altíssimos. O Brasil registrou mais de 50 mil casos em 2013 e não precisamos lembrar que ainda há uma boa porcentagem que nem chega a ser registrado.

As mulheres são vistas como seres que devem atender aos desejos da sociedade patriarcal e são severamente punidas se não o fazem. Então não, o que o filme me mostrou não pareceu nem um pouco fora da realidade, não vejo mulheres sendo forçada a dar seu leite, mas na nossa realidade elas dão o sangue.

As grávidas passam a ser vistas como incubadoras. “Isso é minha propriedade!” Immortan Joe grita com Splendid quando ela usa sua gravidez como escudo. A partir do momento da concepção, o feto vira mais importante que a vida da pessoa que o carrega, ninguém se interessa em saber se ela têm condições de ter aquela criança ou se quer ter aquela criança (“Quem mandou abrir as pernas?” É o que vão dizer), o mais importante é preservar algumas células que estão se formando agora. Aí entramos de novo na questão da religião, políticos muitas vezes esquecem que o Brasil é um Estado Laico e usam sua religião para dizer os outros podem fazer com seus corpos, a escolha de ter um filho é puramente da pessoa que está carregando a criança, mas é difícil que a sociedade veja essas grávidas como mais que “suas propriedades”.

E aí chegamos na guerra, financiadas com sangue e atendendo os poucos que possuem a maior parte da riqueza. Immortan Joe cria uma guerra para recuperar cinco mulheres que via como propriedade, grandes potenciais invadem outros países com qualquer desculpa se acreditarem que aquela guerra pode ser lucrativa.

Mad Max nos mostra quem matou o mundo: Uma sociedade opressora, patriarcal, que trata pessoas como objetos e não como seres humanos, que enche os bolsos de poucos. A nossa sociedade matou o mundo, essas atitudes vão nos destruir.

O filme dá uma resposta? Acredito que sim.

A resposta é matar Immortan Joe, destruir o modelo conservador e trazer um novo. As mulheres que voltam para Citadela representam um mundo mais justo, um mundo que jogue fora o patriarcado, o fanatismo e a opressão. Não é fácil. Quantas pessoas morrem no filme? O quanto Furiosa sofre para levar as pessoas de volta?

Não foi fácil, mas elas conseguiram.

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2 comentários sobre “Quem matou o mundo? – O aviso de Mad Max

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