A Letra B na Ficção | Problemas com a Representação Bissexual

Antes de começar o texto, quero dizer que quando uso o termo bissexual, estou usando como termo guarda-chuva e aqui estou incluindo também pansexuais, polissexuais, assexuais birromânticos, etc. Caso você saiba inglês, há uma imagem bem legal que explica isso.

O motivo desse texto é porque nos últimos tempos, o B do LGBT+ parece mais apagado do que nunca. Não só pessoas héteros, mas muitas vezes pessoas dentro da própria comunidade LGBT+, que deveria ser um local seguro, invalidam essa sexualidade por inúmeros motivos.

Ao contrário do que várias pessoas afirmam, bissexuais passam por vários problemas devido a invisibilização e agressões que sofrem por sua sexualidade. Vou evitar exemplos para não ativar trigger de ninguém, mas também deixarei aqui um link que aponta vários estudos mostram resultados desse tipo de opressão.

Como é de se esperar, esse comportamento bifóbico também se reflete na mídia e suas representações, que ao invés de incluir pessoas bissexuais, acabam muitas vezes reforçando estereótipos e apagando suas sexualidades, seja porque a mídia em que o personagem se encontra não o reconheça como bi ou pelo próprio tratamento e leitura feita pelos fãs.

Então aqui vai uma lista de alguns personagens que se encaixam em uma dessas situações. Aviso de spoilers para: Orange is the New Black, House, Azul é a Cor Mais Quente, Dragon Age, Mass Effect, Avatar: A Lenda de Korra, Glee, The L Word e House of Cards.

  • Piper – Orange is the New Black

OITNB, eu te amo, mas o apagamento que vocês fazem com a Piper é grande. Primeiro precisamos lembrar que Piper Kerman, a “Piper na vida real”, é uma mulher bissexual assumida. Entendo que alguns fãs não consideram que isso seja prova o suficiente para “provar” que Piper é bissexual, mas mesmo se excluirmos isso, há vários indícios na série de que ela é bi (e de que isso é ignorado desde a primeira temporada).

No primeiro episódio já descobrimos que Piper se relacionou com Alex no passado e agora é casada com Larry e, sinceramente, para mim isso já é prova mais que o suficiente para mostrar que ela é bi. Infelizmente, ainda terão pessoas que vão falar que a Alex era uma fase ou que o Larry era uma forma dela se adaptar na sociedade. Em um de seus flashbacks, Piper diz: “Eu gosto de garotas bonitas. Eu gosto de garotos bonitos. Eu gosto de pessoas bonitas” e mesmo assim, tanto a série quanto parte dos fãs insistem em apagar sua bissexualidade. Além disso, a série também erra em vários momentos: Larry se lamenta várias vezes dizendo que Piper “não era mais lésbica”, várias pessoas na prisão a chamam de lésbica quando ela está com outra mulher, e também não vamos esquecer de quando Alex diz: “Regra número 1: Nunca se apaixone por uma garota hétero”. Bom Alex, pode ficar tranquila, porque por mais que tentem apagar a sexualidade de Piper, ela não é hétero e nem lésbica, ela é bissexual.

  • Treze – House

Na quarta temporada de House, somos apresentados a nova médica Remy Hadley, mais conhecida como Treze. No final dessa temporada (se não me engano), há um episódio em que tanto Foreman quanto House fazem comentários sobre ela ser bissexual, mas pra muitos a confirmação só veio no começo da quinta temporada, com um episódio que uma das ficantes de Treze vai parar no hospital. Mais tarde, na mesma temporada, ela começa a namorar Foreman e todos os membros da equipe a aceitam como bissexual. Ou será que não?

Aceitação também significa não fazer comentários preconceituosos sobre a pessoa, perto ou longe destas. Kurtner questiona Foreman sobre ele se sentir seguro com Treze, porque ela é bi e poderia trocá-lo por uma mulher um dia desses, fortalecendo o estereótipo de que a pessoa bissexual não se “contenta” com apenas um gênero e é mais propensa a trair. Também existem comentários por parte do House de Treze ser “meio lésbica”, criando a ideia errada de que pessoas bi são meio uma coisa e meio outra. Em outro episódio, Treze e Wilson ficam presos na lanchonete do hospital e brincam de verdade ou desafio, que resulta no seguinte diálogo:

Wilson: Você já fez sexo à três?

Treze: Não

Wilson: Sério?

Treze: Só por que eu sou bissexual?

Wilson: Bem… É

Treze: Você sabe o que bissexual significa? Não é que nós fazemos sexo com duas pessoas ao mesmo tempo.

As respostas de Treze são boas em vários momentos da série, mas há comentários desse tipo com alguma frequência, sem contar que na época muitos fãs reclamavam da personagem ser muito sexualizada, perpetuando o estereótipo de que bissexuais ficam com todo mundo.

  • Adele – Azul é a Cor Mais Quente

Essa é uma história que divide muitas opiniões, mas de qualquer forma, vemos o romance entre Adele e Emma que não acaba bem. O filme/quadrinho dá a entender que Adele nunca tinha se apaixonado por uma mulher até conhecer Emma, e concordo que isso não é necessariamente prova de que ela é bissexual, mas o fato dela trair Emma com um homem pode apontar que ela seja.

Muitas pessoas falaram várias questões problemáticas na história, mas vamos nos focar no assunto: Boa parte dos fãs vê Adele como lésbica e dizem que ficar com homens era a forma dela de se ajustar na sociedade. Não que isso não exista, claro que existe e isso deve ser falado, mas por que é tão mais fácil acreditar nisso do que acreditar no fato de que ela goste de mais de um gênero? Além disso, a única personagem com provas de ser bi é a que trai a namorada com o homem, novamente perpetuando o estereótipo de que a bissexual vai acabar te trocando. No caso da mulher bissexual especificamente, ela é sempre lida como alguém que vai trocar uma namorada por um cara, porque ela não é “gay suficiente”

  • Jack – Mass Effect

Bioware, eu te amo, mas você também vem pra lista.

No segundo Mass Effect conhecemos Jack, uma prisioneira que cometeu uma longa lista de crimes e em certo momento podemos recrutá-la para a equipe. O problema dela não é exatamente a representação da personagem, mas a falta dela. Ahn? Calma, vou explicar.

Em uma das conversas, Jack comenta que conheceu e ficou amiga de uma garota e do namorado dela. Jack fala “Eu achei que eles fossem me ajudar, bem, me ajudaram até a cama deles” deixando implícito que os três tiveram um relacionamento, mesmo que tenha sido por pouco tempo. A questão é que Jack é romance apenas para Shepard homem, sendo que a única vez que ela comenta sobre preferências sexuais é esse diálogo, que mostra que ela gosta de mais de um gênero.

  • Korra e Asami – Avatar

Calma! Não há nada na representação que considero problemático aqui, acredito que com o espaço que tinham (considerando que a Nickelodeon nunca aprovaria as duas se beijando, infelizmente), os produtores conseguiram representar bem elas como bissexuais e o relacionamento das duas como um todo.

Coloquei esse caso aqui para mostrar como a bifobia pode vir dos fãs. Quando o último episódio de Avatar: A Lenda de Korra foi ao ar, várias pessoas comemoraram porque Korra e Asami eram… Lésbicas, um casal de lésbicas que tinham ficado juntas no final. Em muitas partes da internet, não importa quantas vezes as pessoas apontassem que ambas se relacionaram com o Mako e portanto eram bissexuais, as pessoas insistiam em chamá-las de lésbicas. Muito obrigada Bryan Konietzko por falar com todas as letras que as duas são bissexuais (e que se amam, casal mais lindo do desenho todo).

  • Brittany – Glee

Glee é um caso muito grande de bifobia, o que é uma pena porque a série se propõe a passar mensagens de aceitação, de não se importar em ser loser e afins, mas trata a bissexualidade de forma muito ruim.

Brittany vai sendo revelada em vários momento como bissexual, tendo relacionamentos com Artie, Sam, Santana, etc. Não é só uma personagem que cai em estereótipos, mas é motivo de piada em boa parte dos episódios. Em um dos episódios é literalmente comentado que ela ficou com todos os garotos da escola, novamente a ideia de “bissexuais ficam com qualquer um”.

Não satisfeitos, na quinta temporada Santana começa a namorar a Dani, que é lésbica, e Santana comenta: “Finalmente eu tenho uma namorada com quem não preciso me preocupar se vai correr atrás de pênis”. Essa preocupação é infundada, Brittany nunca (até onde eu me lembro) tinha traído Santana com ninguém, o único momento que poderia muito de longe cair nessa categoria é quando ela não quis terminar com o Artie pra ficar com a Santana. Terceiro que, obrigada Glee, mas uma vez reforçando o quão promíscuos e infiéis bissexuais são.

Aproveito o momento para citar aqui a frase do Kurt quando Blaine se questiona sobre ser bissexual: “Bissexual é um termo que os garotos usam no ensino médio quando querem andar de mão dadas com garotas e se sentirem normais”. Preciso continuar?

  • Alice e Tina – The L Word

Vamos começar com Alice. No começo da série, ela era uma personagem orgulhosa de ser bissexual, que sempre se defendia de comentários bifóbicos com bons discursos. Até aí tudo bem, o problema é que, mais tarde, Alice começa a se identificar como lésbica e diz para Dana que “Bissexualidade é nojento, agora eu vejo isso”. Além do problema óbvio, de dizer que uma sexualidade é nojenta, aqui reforçamos o estereótipo de que a pessoa bissexual sempre vai “escolher um lado”. Além disso, em parte vemos também o estereótipo de que ser bissexual é um “estágio” que algumas mulheres passam antes de se identificarem como lésbicas.

O caso de Tina fala de outro tipo de estereótipo, de que a mulher bissexual sempre trocará sua namorada por um homem, além de serem pessoas que traem com mais facilidade. Tina termina com uma namorada de muitos anos para ficar com um cara e é acusada de “aproveitar dos seus privilégios heterossexuais”. O problema é que ter identidade apagada não é privilégio, o que a faz ser excluída do grupo que andava anteriormente. Mais tarde, a série volta para o estereótipo que apresentou com Alice, quando Tina volta com a namorada e passa a se identificar como lésbica.

  • Frank – House of Cards

Mais uma vez vou colocar a Netflix na lista, inclusive esse exemplo é muito parecido com o que acontece em OITNB. Na segunda temporada, descobrimos que Frank não gosta de se relacionar só com mulheres, então a expectativa era grande para ver um personagem principal que também é bissexual, ainda mais porque a representação de homens bi é menor que a de mulheres bi.

Infelizmente, a Netflix continua com o seu medo de usar a palavra “bissexual”. Willimon, produtor da série, diz em entrevista que não vê Frank como alguém que tentaria definir sua sexualidade e a ideia era deixar isso ambíguo. É mostrado na série que ele gosta de mais de um gênero, o que há de ambíguo nisso? É aquela ideia de que pessoas bissexuais não querem se “dar rótulos” e não se preocupam com isso, como acontece com Piper, como acontece com Lisbeth na trilogia Millenium… A maioria dos persongens bissexuais da mídia não dizem o que são e quando questionados ficam nesse de “não gosto de rótulos” ou “gosto de pessoas” e coisas do tipo.

Perguntei para algumas pessoas sobre personagens bissexuais para fazer esse texto e tive várias respostas de má representações e leituras, então aproveito para incluir mais alguns nomes aqui: Bo (Lost Girl), Emily (Pretty Little Liars), Dr. Torres (Grey’s Anatomy), Usagi (Sailor Moon), Ennis (O Segredo de Brokeback Mountain), Willow (Buffy, a Caça Vampiros), Ellaria Sand e Oberyn Martell (Game of Thrones), entre muitos outros.

Não há problema uma pessoa questionar sua sexualidade, não querer se definir ou acabar mudando depois a maneira que se identifica, sexualidade não é algo escrito em pedra. O problema é que esses estereótipos sempre ficam para as pessoas bissexuais, apagando suas identidades e reforçando estereótipos. Como dá pra ver, às vezes a mídia em si nem é o maior problema, mas sim a leitura que muitos fãs fazem dos personagens. Para as pessoas bissexuais, ver um personagem assumidamente bi e livre de estereótipos significa muito.

Essas representações vem aumentado com o tempo, há alguns anos atrás não teríamos um desenho animado como Avatar com um casal de mulheres bissexuais, por exemplo, e a bissexualidade nem era algo pensado para se representar, mas hoje ainda temos vários problemas que precisam ser resolvidos.

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