A Comida das Fadas

Hoje vamos falar de comida. Desde que Adão e Eva comeram o fruto proibido e foram expulsos do paraíso, não é incomum encontrarmos na ficção, principalmente nos contos de fada, a comida como elemento importante da narrativa. A própria Branca de Neve vai, mais tarde, pegar a ideia da maçã que não se pode comer, seguido de punição.

Nesses casos a comida aparece normalmente como um desejo ao qual não devemos ceder, nos levando a ideia da gula, um dos pecados capitais. Normalmente sempre vai ter um personagem que vai ceder ao desejo da comida, fazendo com que este passe por algum desafio por causa disso. É comum também que o protagonista consiga superar esse desafio mesmo sendo “impossível” e “ninguém nunca conseguiu antes”

Porém, há um efeito mais específico do “não coma isso” que aparece bastante, além de uma punição por si só, que está mais relacionado ao mito das fadas.

Quando pensamos em fadas, vem logo na cabeça algo parecido com a Sininho ou a fada da Cinderela. Normalmente representada como mulheres, elas realizam desejos, na maioria das vezes são menores que humanos e em geral são criaturas boas, mesmo que às vezes fiquem irritadas.

As fadas vêm de lendas europeias, o termo é usado para descrever criaturas mágicas, com formato humanoide e que realizam desejos… Mas os viajantes precisam tomar cuidado dobrado perto dessas criaturas, pois são conhecidas por seus truques que enganam muitos desavisados.

Entre vários tipos, existem os chamados changeling, que eram fadas deixadas no lugar de crianças roubadas. Essas crianças humanas que eram roubadas iam para o mundo das fadas, que em muitas culturas é representado como o subterrâneo, e elas não conseguiam mais sair dali se já tivessem comido algo originário desse lugar.

É sobre essa ideia que quero conversar hoje: Humanos que comeram o que não deviam e ficaram presos em um mundo diferente do seu.

sandara.deviantart.com

Vamos começar por uma das histórias mais antigas e que provavelmente foi inspiração para as outras: Perséfone. Na mitologia grega, a deusa é filha de Zeus e Deméter e ficou conhecida como a deusa do mundo dos mortos.

Um dia Hades vê Perséfone e resolve que a quer como esposa (a lógica dos deuses gregos não faz nenhum sentido, eu sei), então ele a sequestra e leva para seu mundo. Deméter fica deprimida, o que fez com que as colheitas dos humanos não dessem mais frutos. Pra consertar a situação toda, Zeus manda Hermes até Hades que fala  pro deus dos mortos libertar Perséfone.

Hades concorda e deixa a deusa ir e tudo fica bem, né? Não exatamente, e é aí que entra a história toda da comida. Antes de ir, Perséfone tinha comido sementes daquele mundo (a maioria das lendas inclusive diz que isso foi um truque de Hades), portanto não podia mais voltar completamente para o mundo dos outros deuses. Zeus resolve então que Perséfone passaria metade do ano com Deméter (verão e primavera) e a outra metade com Hades (inverno e outono).

É interessante pensar que mais tarde, o mito das fadas seria relacionado ao subterrâneo e essas seriam criaturas conhecidas por enganar os outros. Pensando que pelo menos algum tipo de fada fosse originária do subterrâneo, faz todo o sentido que elas tenham características parecidas com o rei desse reino, como fazer truques com os outros e usando a comida para tal.

Em o Labirinto do Fauno, Ofélia precisa passar por três provas para voltar para a sua casa: O reino das fadas, que fica no subterrâneo. Parece familiar, não?

Pois bem, a segunda prova que Ofélia precisa fazer é recuperar uma adaga do lar de um monstro que come crianças, olha que legal. O fauno avisa pra ela que se ela comer alguma coisa nessa missão, Ofélia acordará o monstro e vai morrer.

Ofélia pega a adaga, porém fica com muita vontade de comer as coisas que estão ali. Aqui também tem o elemento do desejo pela comida que devemos resistir, mas não teria história que ele não cedesse, né? Ofélia come, o bicho acorda e ela precisa fugir.

O que é mais interessante aqui é que não só o monstro acordou, mas a porta que ela tinha aberto fechou, porque ela não podia mais sair, ela estava presa. Tudo bem, depois ela escapa, mas como ela é a heróina, pressupomos que aquela é uma tarefa muito difícil e que só ela conseguiu realizar, ou seja, todas as outras pessoas que comem desse lugar ficam presas e eventualmente são devoradas pelo monstro.

Mais uma vez isso tudo ocorre em um ambiente com fadas e no subterrâneo. No caso, as fadas que estavam com Ofélia avisam que ela não pode comer e ela ignora o aviso, mas existem vários tipos de fadas nas lendas e essas especificamente provavelmente estavam agindo mais no papel de proteção da “fada madrinha” do que no de fazer truques, afinal elas foram mandadas pelo fauno para ajudar Ofélia.

No filme Labirinto (qual é a dessas fadas e labirintos?) a lenda dos changeling não podia ser mais óbvia: Sarah deseja seu irmão para o rei dos duendes (lembrando que em algumas lendas, o termo “fada” pode ser usado para descrever qualquer criatura mágica, como os duendes, por exemplo), ele aparece e leva a criança embora. No final do filme ela consegue recuperar o irmão, mas em um universo paralelo eu não ficaria surpresa se, caso ela falhasse, substituíssem o irmão dela por um changeling para a família não ter conhecimento do mundo das fadas ou de nada que aconteceu (olha que ideia legal para fanfic).

Sarah precisa ir para o mundo subterrâneo, um reino com duendes e fadas, para recuperar seu irmão. Todos os elementos estão aqui, só falta a comida.

Quando Jareth percebe que Sarah está se saindo melhor do que ele esperava, ele entrega para Hoggle, um de seus servos, um pêssego envenenado (maçã é muito mainstream) e não fala pra que serve, só manda o duende dar a fruta pra ela. Todo mundo sabe que coisa boa não é.

Hoggle dá o pêssego pra Sarah e ela come. Ela começa a ficar confusa e cai em um mundo de sonhos, feito para que ela esquecesse do irmão e as horas passassem rápido, perdendo a chance de salvá-lo. Ou seja: O rei do mundo subterrâneo, onde existem fadas, tenta enganar uma pessoa que está em seu domínio através de uma comida para que esta fique presa em um lugar específico.

Tudo bem, Sarah conseguiu escapar e salvou seu irmão, mas não muda o fato do pêssego prendê-la por algumas horas naquela outra realidade. Há muitas pessoas no fandom que falam sobre como Sarah, ao comer a fruta, acabou ficando parcialmente presa ao labirinto, inclusive assunto muito retratado em fanfics.

Uma história que não se relaciona tão obviamente, mas ainda assim pode ser colocada aqui, é a amada Viagem de Chihiro. No filme, Chihiro e seus pais acabam entrando por acidente nesse mundo paralelo. Ela não se sente tentada pela comida e fica vagando pela cidade enquanto seus pais começam a se alimentar. Resultado: Eles viram porcos e ficam presos naquele mundo.

A comida é um elemento que aparece frequentemente nesse filme, mas vamos voltar ao foco aqui. Mais tarde, Chihiro descobre que aquele é o mundo dos espíritos, lembrando que em muitas lendas fadas são lidas como espíritos da floresta ou até dos mortos. Chihiro vai desaparecendo porque ela não é daquele mundo e, para conseguir ficar ali, precisa comer alguma coisa, algo que a prenda àquele lugar. De todos os exemplos até agora esse é o primeiro em que ninguém é enganado ou tentado: Haku explica que ela precisa comer ou vai desaparecer, então ela come.

Mas só porque Haku não a enganou ali não quer dizer que alguém não tenha tentado mais tarde no filme. Sem Rosto consegue entrar na casa de banho e começa a comer tudo pela frente, seja comida ou funcionários do lugar. Isso faz com que o espírito cresça horrores e comece a causar o caos ali. Ele quer Chihiro, então ele tenta a garota com ouro para conseguir devorá-la, que não dá certo. Não é com comida, mas os elementos estão aqui.

Além disso, temos histórias mais clássicas que falam sobre o assunto. O primeiro contato de Alice com o país das maravilhas (um reino que, olha só, fica no subterrâneo) é quando ela bebe e come algo de outro mundo, se não nunca conseguiria ter acesso ao reino.

Talvez a história que mais lembre o “comida que não devemos comer” seja mesmo João e Maria. Dentre desses exemplos, eles são os únicos que realmente passavam fome. A casa de doces é um truque em si, feito para sequestrar os viajantes e com isso a bruxa prende suas vítimas em sua casa para devorá-las.

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