Deixa as minas serem fangirls em paz!

Já vou pedir desculpas logo no começo por esse não ser o típico texto que eu costumo postar. Hoje não tem análises, dicas, listas ou teorias, hoje vai ser um texto sobre um assunto que não sai da minha cabeça e um pouco de relato pessoal.

Caso você saiba ler inglês, o texto que me inspirou a escrever esse está aqui, que basicamente fala sobre como as pessoas e a sociedade em geral tendem a ridicularizar e tirar sarro de garotas adolescentes e das coisas que elas gostam.

Era uma vez eu, com meus 11-13 anos de idade, entrando na adolescência e sendo bombardeada por aquela ideia horrível que temos na escola de “precisamos ser aceitos e populares”. Eu sou uma pessoa muito introvertida, então “popular” não era um adjetivo que eu poderia usar para me descrever na escola (ainda não é, mas pula essa parte). A gente tinha a ideia de que as meninas “populares” eram aquelas que gostavam de se vestir bem, usar maquiagem, tinham os cadernos rosas e suas letras bonitas com glitter. Eu nunca fui nada disso, portanto eu não me encaixava.

Procurei a atenção em outro lugar, e aqui vou desenterrar provavelmente o momento que mais reproduzi machismo em toda minha vida. Eu gostava de videogame, de me vestir com roupas largas e de rock, o que acabou me dando um espaço em alguns grupos de meninos. Quando percebi, eu era um dos meninos, eu era aceita e azar daquelas meninas, né? Porque gostar de roupas e maquiagem era fútil, porque meninas que gostam de funk e pop não tem bom gosto musical, porque meninas que gostam de histórias de amor são bobinhas, ou pelo menos era isso que eu pensava.

Eu não queria ser uma das meninas, além da minha mágoa de não me encaixar no “padrão das meninas”, toda a sociedade ao meu redor dizia que elas eram uma piada, os meninos que andavam comigo falavam em como essas meninas eram bobas. Mas eu não, eu era “diferente”, eu era “legal”.

Eu julguei meninas por fazerem de tudo para ir no show da Britney Spears, mas eu fiz tudo para ir assistir o Nightwish em 2008. Eu julguei meninas que gastavam toda a mesada com maquiagem, quando eu fiz o mesmo com meus jogos. Eu julguei meninas que gostavam de chamar atenção na balada, quando muito do meu jeito molecão era um chamado por atenção da minha própria maneira.

Os anos passaram e as coisas foram mudando. As coisas que eu amava eu de fato amava, não me forcei a gostar, amo rock até hoje, viciada em videogames e outras “coisas de garotos”. Mas eu fui mudando, por mais que ainda tem quem acredite que você só pode gostar de um tipo de coisa. Eu comecei a me interessar por maquiagem, um tipo de roupa aqui ou ali chamava minha atenção, o rock não era mais o único gênero que eu ouvia. Mas eu não podia gostar de “coisas de garotas”, né? Não, coisas de garotas eram coisas ruins, fúteis e eu queria ser aceita, então eu escondi esses meus outros gostos.

Hoje eu olho pra isso e parece bobo, mas na época, para minha versão adolescente, aquilo era muito importante, eu tinha que manter a minha aparência. Mas o que tudo isso tem a ver com o primeiro texto?

Não são poucas as matérias na mídia que ridicularizam as meninas que amam as bandas teens, mas se você parar para pensar, tem muito marmanjo fazendo coisas mais absurdas por bandas de classic rock. Ouvi de certas pessoas o quão absurdo eram as meninas na fila do show da Katy Perry, quando essas mesmas pessoas ficaram horas e horas na fila de System of a Down. Por que um é aceitável e outro não?

Porque Katy Perry é “coisa de menina” e SOAD é “coisa de menino”. Os meninos são legais, as coisas que eles gostam são boas, inteligentes e interessantes, porque em geral os homens são vistos dessa forma pela sociedade, mas as meninas… Ah, elas são bobas, gostam dessas porcarias. Isso não é só um jeito de fazer a sociedade toda ridicularizar essas garotas, mas ao colocar a auto estima delas para baixo, você as controla de certa forma. Ao mesmo tempo em que a sociedade diz que elas não devem ser levadas a sério, várias revistas “para adolescentes” dizem como atrair a atenção daquele “gatinho”, que gosta de Metallica e provavelmente te acha boba por gostar de Demi Lovato. Ridicularizando essas meninas, a sociedade não só cria mulheres com baixa auto estima, mas também tira o crédito das futuras mulheres que elas virarão. Quantas vezes uma mulher não foi desmerecida por ser histérica? Brava demais? Tá na TPM? Tá precisando de homem?

Mulheres não são levadas a sério, nosso gênero é colocado em questão toda a hora. Temos que provar que sabemos mesmo fazer alguma coisa enquanto o homem nunca é questionado. Fun fact: Já entrei numa briga sobre feminismo com um homem cis e a pessoa em questão só parou para ouvir meu lado quando outro homem veio concordar com os meus argumentos. Eu estava exagerando, eu estava louca, eu que via machismo em tudo… Ah não, espera! Olha um homem ali falando a mesma coisa, acho que pode ter algo certo aí no meio.

A sociedade ensina que os homens devem ser levados a sério, enquanto as mulheres são bobas, exageradas, fúteis. Em algumas meninas, como eu antigamente, isso cria uma prática de se limitar para agradar um padrão, para ser aceita em algum grupo. Eu só queria ser vista pelas coisas que eu gostava que “eram de meninos”, porque só aí eu seria respeitada, caso contrário eu seria “mais uma daquelas meninas” e, de acordo com todos ao meu redor, isso era algo ruim.

Agora, ao mesmo tempo em que eu digo tudo isso e acho que adolescente tem que gostar do que quer que as faça feliz, eu também vejo em tudo isso um outro tipo de controle. Ao mesmo tempo que você destrói a auto estima das meninas, você oferece algo para substituir e moldá-la do jeito que você quer.

Vamos levar isso para o lado dos namorados, como exemplo. A sociedade olha as meninas desesperadas para assistir One Direction e diz que os homens nunca vão gostar delas, porque elas são patéticas. Em seguida você apresenta, por exemplo, um livro, com uma menina com pouca auto estima e mostra como ela conseguiu a atenção do cara incrível… Só que ao invés de mostrar uma história de amor saudável, é criada uma relação abusiva que ensina a moça a ser submissa, a aguentar ciúmes possessivo e até agressões, tudo “em nome do amor”. Estou olhando pra você, Crespúsculo, mas há outras histórias que poderiam se encaixar aqui.

Apesar de realmente achar que Crepúsculo romantiza abuso, eu não vou virar para uma menina de 12 anos e chamar ela de burra por gostar do Edward ou do Jacob. Não, eu vou para os adultos que vendem essa história como “um grande romance” e criticar como esse tal romance é feito e vendido. Essas meninas precisam se amar, não de um modelo de relacionamento abusivo pra acreditar que é o ideal. Entendo que tem pessoas que gostam de Crespúsculo mesmo enxergando tudo isso e acho super válido, também gosto de coisas problemáticas, assisto certas coisas que posso escrever páginas sobre os problemas (cof cof Game of Thrones), mas também continuo gostando. O problema não é gostar ou não de Crepúsculo, o problema é a influência que essa história pode ter, mas no final do dia você pode gostar do que quiser.

Infelizmente, na nossa sociedade, garotas adolescentes são criadas para serem vulneráveis de várias formas, o que não quer dizer que elas tenham cabeça fraca ou sejam burras, a pressão que a sociedade faz aliada à mídia é esmagadora. Ridicularizar o que elas gostam é perpetuação de machismo, uma forma cruel de manter essas futuras mulheres no lugar que a sociedade deseja, e é por isso que todo esse ódio com vícios de fangirls é tão destrutivo.

Porém não posso negar que vejo nessas adolescentes de hoje, e também naquelas que eu tanto procurava odiar, uma força que eu nunca tive com essa idade. A força de dar a cara a tapa e falar pra todo mundo o quanto gosta sim de One Direction, Taylor Swift, Crepúsculo, Glee e qualquer outra coisa que fazem elas serem ridicularizadas.

A questão não é o que você gosta ou não, você pode ser uma garota que gosta das “coisas de garotas” ou das “coisas de garotos”, tanto faz porque gosto não é definido por gênero, todas são coisas que podem ser amadas por qualquer um, a diferença é que algumas delas são lidas como “certas” de se gostar e outras como “bobagem”. Mas eu acredito nas próximas gerações, eu vejo meninas mais novas cada vez mais empoderadas de um jeito que meu eu de 13 anos nunca seria.

Meninas, nunca tenham vergonha do que vocês amam.

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4 comentários sobre “Deixa as minas serem fangirls em paz!

  1. Menina, eu concordei com tudo oq li aqui. Me enxerguei aos 12, 13 anos. Vou aproveitar esse espaço para contar um pouco da minha história, porque vai servir de reflexão pra mim também:
    Na adolescência o grupo no qual eu me encaixava era das mais populares (ou que me fiz encaixar, não sei). Rosa, glitter, letra redonda e bonita, concursos de beleza. Era MUITO divertido, mas eu não estava sendo totalmente eu. E aí entra oq vc falou, “algumas pessoas acham que só se pode gostar de um tipo de coisa”, bom, eu era uma dessas pessoas. Não sei porque diabos eu assimilei isso como verdade, acho que é porque parecia que o entorno me dizia isso. A sociedade me dizia isso.
    Acontece que além do “mundo da Barbie”, eu gostava DEMAIS de outras coisas: ler, jogar video game, escrever e ter blogs. Coisas que eu abandonei porque meu grupinho não curtia isso. Clarice, eu ABANDONEI!! Olha o tamanho da estupidez. meu Deeeus!!! Eu poderia ter desenvolvido meus talentos, poderia já ter um blog grande, poderia até já ter escrito um livro. Mas eu parei até de ler, algo que sempre foi minha razão de respirar, praticamente. Retomei a leitura somente na faculdade e os games estão voltando pra minha vida só agora (25 anos…)
    Acho que isso leva a uma reflexão importante: precisamos deixar claro pras nossas meninas (e meninos também, pq não?) que eles podem gostar de coisas variadas e que essas coisas são legais sim, mesmo que mais ninguém que conheçam goste.
    E sobre Crepúsculo e “coisas de meninos é que são legais e admiráveis”, me resta só assinar embaixo mesmo porque daria mais um enorme texto cada assunto deste!!
    Amei seu texto, grata por ele.
    Um bjo!!

    http://www.vivendovivi.blogspot.com.br

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  3. Pingback: Autoinserção, criatividade e poder ser qualquer coisa | Ideias em Roxo

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