Nós somos mais que coadjuvantes | Star Wars, Mad Max e o preconceito no mundo nerd

Como todos sabem, dia 20/10 saiu o novo trailer de Star Wars: O Despertar da Força. No dia anterior, soltaram nas redes sociais o pôster do trailer. A internet explodiu, todo mundo eufórico, correndo pra comprar ingresso, agradecendo por uma das franquias mais amadas do mundo nerd estar de volta aos cinemas… Infelizmente, não foi só felicidade.

No twitter, um grupo começou uma campanha para boicotar o filme com a hashtag #BoycottStarWarsVII porque, segundo essas pessoas, era uma propaganda “anti-branca” por ter muita diversidade no elenco. Há quem diga que a hashtag foi só trabalho de trolls e que a maioria gritante das pessoas que usaram estavam expressando seu nojo contra esse grupo, e que na verdade quem fez a hashtag só queria mesmo causar. Eu não acredito nisso, ainda mais porque supostamente seria uma piada do 4chan, que já tem um histórico bem ruim de preconceito.

Não que eu não acredite na existência de trolls, mas eu não acho que isso era só brincadeira pra ver a reação geral. Não é caso isolado, quando há algum tipo de diversidade maior em alguma mídia nerd, sempre temos essas demonstrações de intolerância nas redes sociais. Não duvido nada que existam pessoas que realmente achem um absurdo que os dois protagonistas do novo Star Wars sejam um homem negro e uma mulher. É só parar pra ver quantas vezes isso já
aconteceu.

Esse ano, quando o filme Mad Max foi lançado, houve também uma campanha para o filme ser boicotado. De acordo com essas pessoas, a Furiosa ocupava um papel muito grande em um filme de ação, um gênero que “não é para mulheres”, quase tomando o lugar de Max, que era o homem protagonista. Inclusive, durante entrevistas, perguntaram para Tom Hardy se ele achava estranho ter tantas mulheres em um set de ação. Oi? Pra essas pessoas foi um absurdo ver Furiosa atirando, lutando melhor que a maioria dos homens do filme (se não todos) e salvando o dia, porque afinal esse é o espaço dos homens, supostamente de Max. Furiosa não estava ali para ser um par romântico, para se sacrificar por Max, ela era uma mulher forte lutando por outras mulheres, e uma mulher que não está interessada no homem protagonista incomoda.

Voltando uns meses atrás, tivemos também a polêmica do Mortal Kombat X que inclusive postei aqui no blog. Os fãs da série ficaram revoltados com a possibilidade de ter um personagem gay entre os lutadores, porque Mortal Kombat não é “jogo pra essas coisas”, entre outras pérolas homofóbicas mais pesadas. Também não vamos esquecer a revolta de alguns fãs perante a possibilidade do homem aranha ser bissexual, que foi levantada pelo próprio ator do super herói, Andrew Garfield.

Citei os casos mais recentes, mas podia ficar o dia todo aqui listando os momentos em que a comunidade nerd foi escrota em relação a qualquer tipo de representatividade nas suas histórias favoritas. Ao mesmo tempo em que isso acontece, vemos essas mesmas pessoas que reclamam dessas representatividade achando maravilhosas as roupas “sexy” da versão japonesa do novo Fatal Frame ou defendendo com unhas e dentes as roupas toscas da Quiet do Metal Gear Solid. Esses fãs acham mais “realista” uma mulher que usa biquini em um ambiente de guerra porque precisa fazer fotossíntese do que um homem negro ser o protagonista do novo Star Wars. Isso acontece porque não tem nada a ver com ser realista, como eles tanto insistem, mas sim porque na cabeça deles uma mulher sexualizada é mais aceitável que uma representação de um personagem negro.
Sim, a Quiet vai pra guerra assim. MGS, assim fica difícil te defender.

A mulher deveria ser submissa, o negro deveria servir, o gay só serve para ser ridicularizado, etc. Duvida? Ninguém reclama de personagens mulheres que estão ajudando o personagem principal homem cis branco ou que servem de interesse romântico, ninguém acha ruim a Viúva Negra em Os Vingadores, já que ela está cercada de homens e normalmente acaba se tornando secundária ao redor deles. Ninguém reclama de filmes como 12 Anos de Escravidão terem um elenco “muito diverso”, mesmo metade sendo atores negros, porque já que eles estão em papéis de escravos, a “diversidade” é aceita. Ninguém reclama do único personagem gay em Battle Royale, porque aparece pouco, se torna piada e é morto quase imediatamente depois de ser apresentado.

Quando escrevemos sobre representatividade, sempre questionamos se essas pessoas que reclamam sabem a importância da representatividade. Eu acho que sabem, na verdade, porque quando eles começam a ver alguma da sua própria representatividade sumindo, esperneiam, criam hashtags e piadas toscas no twitter e se sentem ofendidíssimos com o que está acontecendo. Quando você sempre tem o holofote, dividí-lo com outra pessoa depois de tanto tempo pode ser muito difícil, e também mostra o quanto uma pessoa pode ser egoísta.

O meio nerd é ainda muito tóxico com qualquer pessoa fora do padrão, mulheres são testadas pra ver se “manjam mesmo” do tal assunto enquanto booth babes são aceitas, negros são ridicularizados toda vez que tentam fazer cosplay enquanto pessoas brancas fazem blackface… A mídia nerd começou a abrir mais espaço para a representatividade nos últimos anos, mas olhe para as histórias mais antigas, é muito difícil ver uma diversidade maior nos personagens. Por anos não conseguia me conectar tão bem com o próprio Star Wars porque a Leia era uma das únicas mulheres e eu não me identificava com aquilo, mesma coisa com Senhor dos Anéis. Óbvio que a falta de representatividade não impedia minorias de consumirem conteúdo nerd, mulheres, negros, pessoas LGBT+ e os outros grupos sempre estiveram aqui, mas quando você começa a mostrar esse tipo de pessoa, o interesse aumenta, e quem sempre foi protagonista se incomoda em perder o espaço que antes era praticamente só dele. Ficam raivosos quando descobrem uma versão feminina de Thor e Wolverine, como se isso realmente fosse afetar a vida deles de alguma forma, enquanto essa mudança de fato pode mudar a vida das novas gerações de meninas nerds. E é mais assustador ainda quando essas pessoas percebem que as próprias empresas estão começando a ouvir as minorias, por isso que empresas que colocam mais representatividade em seus produtos, como a Bioware por exemplo, são xingadas em fóruns.

Nós somos muito mais que coadjuvantes, muito mais que o personagem secundário que morre. Somos personagens principais, que fazem a diferença e que ganham o final feliz. E pode se preparar, porque nós vamos ocupar nosso espaço cada vez mais, a representatividade só vai aumentar.
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2 comentários sobre “Nós somos mais que coadjuvantes | Star Wars, Mad Max e o preconceito no mundo nerd

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