Viralização nas redes sociais | Sobre Black Mirror e acontecimentos recentes

Algumas semanas atrás eu fiz uma coisa que prometi pra mim mesma que nunca mais faria: Sentei pra assistir o primeiro episódio de Black Mirror de novo. Pra mim, The National Anthem é que nem Réquiem para um Sonho: Geniais, mas só tenho estômago pra ver uma vez. Porém estou numa jornada de fazer todo mundo assistir Black Mirror (olha aqui minha lista de motivos pra você ver também) e sentei pra ver a primeira temporada toda com a minha mãe.

Ainda é um dos episódios mais chocantes que eu já vi na minha vida, e se você já viu o episódio, não digo isso pelo motivo óbvio que move o episódio, mas como a situação toda foi se moldando a partir de um fator chave: Viralização nas redes sociais.

De todos os episódios, esse é, provavelmente, o mais próximo da realidade, o que na minha opinião faz o episódio ser, de certa forma, ainda mais assustador. A possibilidade que isso poderia muito bem acontecer amanhã, ou já ter acontecido de algum jeito diferente, me faz pensar como a nossa sociedade virou refém das redes sociais, pro bem ou pro mal. Não me entendam mal, adoro facebook, twitter, tumblr e boa parte da minha área de trabalho é baseada na internet, não falo isso com um discurso de “Vamos largar esse facebook e ler um livro!”, longe de mim, mas queria refletir sobre o fluxo de informações e toda essa viralização.

Certos casos são jogados na internet e dão o que falar por alguns dias, que seria a vida útil dessas notícias. Na época que resolvi assistir o episódio de novo, era o caso da Revista Atrevida e os membros da banda Fly e suas declarações racistas que estavam bombando. Mais recentemente tivemos a tentativa de boicote ao novo Star Wars (que falei um pouco sobre aqui), o caso da Valentina no twitter, que foi assediada na rede social, seguido da campanha #primeiroassedio, além da questão sobre Simone de Beauvoir e o tema da redação do Enem, a violência contra as mulheres no Brasil. Todos esses casos bombaram nos últimos dias numa velocidade que só é possível devido a viralização feita pelas redes sociais.

Como vou explicar um pouco o que acontece no episódio de Black Mirror, fica o aviso de spoilers do primeiro episódio da série (lembrando que os episódios não são conectados e também lembrando que, caso você queira assistir, fica um aviso de TW pra humilhações e zoofilia).

A história de The National Anthem é a seguinte: A princesa Susannah é sequestrada e o responsável por esse sequestro grava um vídeo dela falando a exigência para ser libertada, que é o Primeiro Ministro da Inglaterra fazer sexo com um porco em rede nacional.

Esse é o ponto principal da história, Michael fazendo de tudo pra não ter que chegar nesse ponto, mas o episódio fala sobre viralização e como a internet fica insana quando alguma coisa polêmica ou absurda começa a ser veiculada dessa forma, principalmente se envolve algum tipo de humilhação. No episódio, o sequestrador libera o vídeo no youtube, então quando as autoridades encontram o vídeo, várias pessoas já assistiram e já começam a comentar sobre isso. O governo impede os meios de comunicação nacionais de soltarem a notícia, então todo mundo na internet está falando sobre isso enquanto os jornais estão falando sobre o clima e outros assuntos normais de todo o dia.

A internet é mais rápida que o rádio e a televisão, é um fato. Hoje mesmo vi um vídeo ser compartilhado entre meus amigos e algumas horas depois que os grandes portais de notícia falaram sobre o tal vídeo. Isso porque é um grande portal na internet, se fosse pra televisão, demoraria ainda mais. A velocidade em que notícias são compartilhadas é absurda.

Isso faz com que não exista espaço para nenhum deslize. No episódio, cada movimento do governo para tentar enganar ou encontrar o tal sequestrador era descoberto por alguém, mesmo que por uma pequena falha, e nos próximos segundos já era espalhado pela internet. A repercussão é imediata, assim como foi a resposta das leitoras para a matéria machista e racista da Atrevida, assim como foi a reação ao assédio sofrido pela Valentina… A internet observa todos nós e é um minuto para que algo viralizar assim. Tudo está registrado.

Nesses dois casos que citei, a viralização ajudou a denunciar atitudes preconceituosas, porém nem sempre ela é usada dessa forma. Há outros casos, que infelizmente não são incomuns, como quando um garoto vaza o vídeo de uma garota fazendo sexo e ela é exposta de todas as formas, o que já levou ao suicídio de adolescentes, ou quando uma página preconceituosa expõe alguém fazendo um discurso contra preconceito e esses fãs preconceituosos fazem cyberbullying com a pessoa exposta em questão. A moeda tem seus dois lados.

A força da internet está no fácil acesso a informação, mas esta não está livre de manipulação. Em uma das últimas eleições, lembro de um vídeo que rodou as redes sociais de uma moça falando que hoje, com internet, não precisávamos mais confiar nas grandes emissoras e conseguíamos ver a verdade nos sites. Isso não é necessariamente fato, sites também são facilmente manipulados. A forma mais sutil de se fazer isso é no jeito de escrever, ao invés de “moça que foi violentada” um portal machista pode escrever “moça que diz ter sido violentada” e isso faz toda a diferença. Outra forma mais óbvia são páginas como o wikipedia, que muitas pessoas aceitam como verdade, mas são facilmente editáveis. Com o caso de Simone de Beauvoir cair no Enem, a página dela foi editada 30 vezes no wikipedia depois da prova, uma tentativa de machistas de tirar desmerecer uma das figuras mais conhecidas no feminismo.

Voltando um pouco pro episódio de Black Mirror, o mais interessante é ver como um país inteiro vira refém das opiniões que são ditas nas redes sociais, inclusive o próprio governo, que acompanha a repercussão no twitter para decidir o que vão fazer. Mais e mais os grandes meios de comunicação ouvem a internet e noticiam algo que acontece nas redes sociais. Isso mostra que essas redes tem um poder imenso e o que aconteceu em The National Anthem não me parece nem um pouco fora da realidade (tirando o porco), isso já acontece, a opinião pública ganhou uma voz muito maior com as redes sociais, movimentos inteiros são feitos nelas e desmerecê-las no ponto da história em que estamos é no mínimo inocência.

No final do episódio descobrimos que o sequestrador da princesa se considera um “artista” e esse sequestro todo era sua maior obra de arte, mostrar como a histeria coletiva podia fazer um país inteiro parar. As pessoas não começaram a ter esse comportamento nos últimos anos, mas as redes sociais são como vários megafones, compartilhar uma notícia no facebook pode atingir muito mais gente do que imaginamos, o que torna essa disseminação muito perigosa em certos pontos, ainda mais se for falsa.

Mais um ponto que quero levantar é que toda a confusão com Michael e a princesa acontece em um dia, que foi uma sacada muito esperta, porque um dia pode ser a vida útil de algo que bomba nas redes sociais. Tudo acontece muito rápido, as notícias esfriam em questão de horas e é uma corrida pra conseguir fazer a sua marca e ganhar muitas curtidas, o que pode facilitar ainda mais disseminação de informação errada.

A internet também te dá janela pra ter uma audiência maior. Hoje qualquer um pode jogar um conteúdo na internet e alguém vai acabar vendo, que pode ser usado para o bem, divulgar coisas boas e até pessoas desconhecidas que não teriam espaço sem essa janela, como para o mal, incentivando esse prazer sádico que muitos têm de sentir prazer na humilhação alheia, mas isso posso falar em outra postagem, já que há outros episódios que tratam desse assunto.

As redes sociais muitas vezes são menosprezadas por serem bobagem e “não é vida real”, mas o poder que elas carregam pode afetar tudo fora da internet, se tem um episódio de Black Mirror que retrata perfeitamente a ideia de sociedade que temos hoje, pra mim é esse primeiro episódio. Diante de tudo que o compartilhamento de informação pode fazer, o porco parece o de menos.

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