Relato frustrado sobre ir numa loja de brinquedos

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Esse assunto é meio batido, mas eu, pessoalmente, nunca tinha falado sobre isso e, apesar de nunca duvidar de quem tinha abordado o tema, não tinha passado pela experiência eu mesma, então resolvi comentar aqui sobre o dia em que fui numa loja de brinquedos e fiquei frustrada com os brinquedos “para meninas”.

Não sou uma pessoa que costuma entrar em loja de brinquedos, entro poucas vezes no ano e já sei o que quero comprar, então acabo não reparando muito nas coisas, mas essa semana fui em uma com uma amiga. Ela precisava comprar um presente de aniversário para a enteada dela, que fez sete anos.

Minha amiga me disse que queria dar uma boneca da Tempestade ou da Jean Grey para a menina, já que ela tinha visto X-Men e gostava bastante. Falei que achava difícil a gente encontrar muitos produtos de X-Men, porque o último filme tinha saído fazia algum tempo e comentei que talvez fosse mais fácil encontrar uma Viúva Negra ou uma Rey, mas a menina não tinha visto nem Star Wars e nem os Vingadores, então decidimos procurar na loja e ver se achávamos alguma coisa.

E é aí que veio minha frustração.

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A tal da “parte de meninas” era recheada de princesas da Disney, bonecas da Barbie e outras tantas que eu não conhecia, mas eram parecidas com os tipos das outras que mencionei. Não vou dizer que fiquei surpresa, mas eu sinceramente esperava alguma variedade nas bonecas. Encontrei uma Úrsula e achei bem legal, pelo menos na época que eu era criança não me lembrava de ter visto uma vilã assim nas lojas. O raio da boneca era por volta de R$ 250,00 e não era um brinquedo que valesse esse preço. Logo em seguida eu vi um Hulk que batia na minha cintura (lembrando que a tal da Úrsula era daquelas que você segura na mão, do tamanho mais tradicional) e era R$ 300,00.

Por que a tal da boneca da Úrsula, muito menor e que não interagia com a criança, era só cinquenta reais mais barata que o Hulk grande e que interagia?

Então fomos pra “parte de meninos” pra ver se a gente encontrava algum brinquedo dos X-Men que a gente queria e, como eu tinha imaginado, eram pouquíssimos, só tinha o Wolverine. Daí comecei a procurar outras heroínas, não sabia tudo que a menina gostava, então fui tentando.

Só conseguir achar duas heroínas: A Mulher Maravilha e a Feiticeira Escarlate. Pois é, nem a Viúva Negra tinha. Verdade seja dita, tinha variações da Mulher Maravilha, mas da Feiticeira só tinha um modelo e não era lá dos melhores. Além disso, quando tinha aquelas caixas com mais de um herói dos Vingadores, dava pra encontrar todos da equipe… Menos a Viúva Negra (e em algumas delas também não tinha o Gavião Arqueiro, mas ele aparecia mais que ela).

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Não é segredo que as heroínas recebem um destaque bem menor que os heróis, a Viúva Negra já foi apagada inúmeras vezes das lojas de brinquedos e a Rey passou pela mesma situação, mesmo sendo a protagonista de Star Wars. Inclusive, falando no assunto, só encontrei bonecas pequenas da Rey e da Leia.

E sim, muitos textos já falaram sobre isso, que a indústria de brinquedos precisa entender que meninas brincam com outras coisas além de Frozen, inclusive por moças que conhecem muito mais o assunto do que eu (lá no Collant tem vários textos do assunto que eu recomendo). Mas não é bem só sobre isso que eu quero falar, então vou continuar o relato.

Sugeri pra minha amiga comprar um boneco de um herói homem. Não era bem o que a gente queria, mas na minha infância eu queria muito brincar de carrinho e sempre queria ser o Power Ranger branco, então nada impedia a menina de querer brincar com bonecos de heróis, né? Quando falei minha ideia, consideramos o Wolverine ou o Hulk porque a menina também gostava, mas aí minha amiga falou que talvez a família da menina não gostasse que a gente desse um brinquedo tão “masculino”.

Aí eu fiquei pensando, a gente cobra muito a indústria e tem que cobrar mesmo, eu sempre acreditei que se as grandes empresas e meios de comunicação investirem na mudança, mesmo que as gerações mais antigas ainda tenham problemas, as novas vão mudar.

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Há uma resistência muito grande da família ainda, muitas famílias vão achar absurdo você dar uma Barbie pro seu filho ou um carrinho pra sua filha (além de ser muito binarista, não vou me aprofundar por não ser meu local de fala, mas assumir que a criança só pode ser um desses dois gêneros também é ruim). Nós ainda ficamos com receio de tentar comprar algo diferente pra uma criança, mesmo que ela vá gostar, por causa das reações dos pais.

E é engraçado ver como as áreas na loja são divididas, para as meninas é tudo boneca princesa, sendo que a única diferente é muito acima do valor, e dos meninos, além de ter mais variedade, é herói, carrinho, etc. É aquela coisa né, vamos dar fogão de brinquedo pra menina e já vai meio que formando a cabeça dela para o que ela deve ser: cuidar da casa e agir como uma princesa.

Não há absolutamente nada errado em uma menina gostar de tudo isso, menina pode gostar do que quiser, seja maquiagem ou jogar bola, mas nós damos outras opções? Eu tive muitas maquininhas de fazer comida quando criança, mas eu também queria videogame, que na época ainda era muito “coisa de menino”. Eu queria tênis que não era cor de rosa e odiava ter que usar saia, mas também lembro de ser uma das únicas, a maioria das meninas gostavam das tais coisas de meninas. A partir disso dá pra tirar uma conclusão, errada, de que menina gosta disso mesmo, mas vamos pensar numa coisa: Se nós só damos essas opções pra elas, e quando elas acabam querendo algo diferente dizemos “não, isso é pra menino”, como esperar outros resultados?

A indústria tem um papel extremamente importante nessa mudança, mas não é a única, nós precisamos incentivar as meninas além do rosa, assim como também podemos muito bem deixar os meninos serem princesas se eles quiserem, por que não? A tal da coisa de menina e de menino acaba virando um condicionamento de papéis que cada gênero deveria atuar na sociedade, mas, pelo menos pra mim, não só a gente tem que quebrar a ideia de “isso é de menina e isso é de menino” como devemos discutir além desse binarismo, afinal de contas nada impede que a criança se identifique com algum gênero não binário. Talvez seja legal, além de tirar o “coisa disso e coisa daquilo” e as cores marcantes de cada um (azul e rosa), fazer com que as lojas misturem mais os produtos. Também seria legal abrir o diálogo, não só em casa como nas escolas também, não?

Não sei bem ainda o que pode ser feito ativamente para resolver essa questão, mas sei que sai da tal loja de brinquedos pensando muito em como essa discussão era importante.

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