Undertale: O jogo certo na hora certa

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Eu já comecei esse parágrafo algumas vezes e apaguei porque eu realmente não sei como começar esse texto, então vai ser assim mesmo. A questão é que Undertale foi um jogo que me emocionou muito, era o que eu precisava na hora que eu precisava. Eu sou uma pessoa muito apaixonada por histórias ficcionais, sejam livros, filmes, jogos, séries, etc. Esse blog só existe exatamente por essa minha paixão por ficção, então eu já cruzei com várias histórias que me inspiraram e me deixaram pensativa, mas Undertale… É um jogo especial.

Já escrevi um texto com alguns motivos para as pessoas darem uma chance pro jogo, ele é um exemplo incrível de como contar histórias, construir personagens e inovação do sistema de jogos. Mas é mais que isso, não foi só eu que me senti pessoalmente tocada pela história que aconteceu no mundo dos monstros, não é pequeno o número de relatos de pessoas dizendo que Undertale os emocionou.

Então hoje eu vou escrever um texto pouco objetivo sobre porque eu acho que Undertale pega as pessoas tão fundo. Aviso de spoilers de Undertale (tipo, muitos spoilers pesados, tá avisado).

Há três formas de terminar Undertale: Neutro, Pacifista e Genocida. Para ser pacifista não se pode matar nenhum monstro, para ser Genocida precisa matar todos e qualquer coisa no meio disso resulta no final Neutro. Terminar o jogo como Pacifista ou Genocida não só dá uma experiência de jogo completamente diferente, mas também dá informações diferentes sobre o que aconteceu naquele mundo.

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Pra mim um dos aspectos mais interessantes do jogo é como ele conversa com o jogador, alguns personagens do jogo reconhecem que há uma “força” atrás do personagem, que de fato existe um jogador ali. Flowey conversa com você, te provoca caso você tenha matado Toriel e dado load, Sans também percebe a sua “capacidade” de andar pelo tempo e espaço, que no caso seria poder salvar o jogo, dar load e começar de novo. Isso tudo faz com que as ações de seu personagem não sejam só dele, mas mais suas do que seriam em outros jogos.

Mais tarde descobrimos que a personagem que controlamos na verdade se chama Frisk, que aquela personagem que nomeamos no começo, que o próprio Toby Fox, criador do jogo, sugere que coloquemos nosso próprio nome, na verdade é o primeiro humano que caiu no mundo dos monstros. No fandom chamamos essa personagem de Chara, que não era exatamente a melhor pessoa do mundo, já que, como descobrimos depois no True Lab e na gameplay Genocida, Chara cometeu suicídio para criar uma guerra entre monstros e humanos, já que por algum motivo Chara odiava a humanidade, mas tudo deu errado quando Asriel se recusou a matar os humanos.

Boa parte das informações sobre Chara e sua maldade só aparecem na versão Genocida, eu joguei como Pacifista e só vi uma referência a maldade de Chara, que foi quando Asriel disse que “Chara não era exatamente a melhor pessoa do mundo”. É verdade, pelas fitas do True Lab da versão Pacifista percebemos que Chara estava manipulando Asriel, mas a versão Genocida é muito mais cruel. Chara começa a falar pelo jogador, Chara mata sem o jogador querer, Chara age de forma grosseira em lugares que já conhece e no final Chara aparece, querendo agora que você resete, “venda sua alma” para poder dominar outro mundo. Sabemos que se completamos uma rota Pacifista depois de uma Genocida, Chara toma controle desse segundo save também.

A grande questão é que Chara só obtém esse controle todo quando o jogador permite que isso aconteça. Quando nós decidimos matar, em um jogo que dá dicas desde o começo de que podemos simplesmente conversar com os monstros sem machucar ninguém, Chara começa a ganhar força. O jogo mesmo diz que foi você que forçou tudo até o ponto em que Chara domina o mundo, tanto que você só pode jogar de novo se “vender a sua alma”.

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Com personagens tão complexos, eu não gosto de acreditar que Chara era psicopata, apesar de algumas pessoas no tumblr já terem provado que muitas de suas atitudes indicam isso. Eu acredito que Chara sofreu muito e deixou a dor tomar conta de tudo. Quando alguém te magoa, te machuca e te faz mal, qual é a nossa reação imediata? Queremos que aquela pessoa passe por algo ruim, que pague pelo que fez, queremos vingança. Não vou julgar reação de ninguém, o que quero dizer é que a raiva é algo involuntário, talvez até poderíamos discutir se isso é algo da natureza humana. Talvez o fato de que nós possamos nomear Chara não seja só pela virada no final (apesar de que isso é muito legal também), mas porque talvez Toby Fox queira nos mostrar que todos nós temos esse lado ruim, essa sombra que precisamos combater, se não ela toma controle de nós. Eu acho muito legal que o personagem mais assustador de um jogo de monstros seja um humano, afinal é a humanidade que criou o mito dos monstros, colocamos nas figuras de monstros características que tememos fazer nós mesmos, não é a toa que o tipo de monstro mais popular atualmente seja o zumbi. Os humanos, que com todo o seu poder de escolha e consciência, que são os mais assustadores, porque mesmo com toda a sua inteligência são capazes das piores coisas.

Essa é a mensagem pesada de Undertale, mas essa também é aquela que tirei depois de ler sobre e absorver o jogo, mas não foi o que me emocionou imediatamente.

Na rota pacifista, temos a chance de conhecer todos os monstros e fazer amizade com alguns deles. Todos são interessantes e no final, quando em tese Frisk sai do mundo dos monstros, recebemos uma ligação com alguns dos personagens. Entre várias coisas que eles dizem, algumas são:

“Se nós não desistimos aqui embaixo, não desista onde quer que você esteja”

“Você se esforçou muito para chegar aí, então onde quer que esteja, tente ficar feliz”

“Se cuida, porque existe gente que se importa com você”

Jogando essa parte eu era só choro. Eu não tenho passado pelos momentos mais fáceis da minha vida, daí vem um jogo que faz eu me sentir pessoalmente envolvida e um dos finais tem mensagens como essas. Sem contar toda a “Isso te enche de determinação” que o jogo fica te mostrando ao longo da história, você encontra essa frase nas coisas mais bobas, talvez exatamente porque precisamos encontrar força nas menores coisas.

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Você está cheio de determinação

Flowey, em certo momento, ainda vai te questionar sobre o motivo de você ser tão legal, tão misericordioso e não conseguir um final tão bom. Isso acontece a primeira vez que você tenta jogar como Pacifista, porque você precisa passar por uma versão dos finais neutros antes. Flowey vai te mandar fazer mais alguma coisa que vai te abrir o final pacifista de verdade, mas a questão é, essa pergunta já passou pela minha cabeça várias vezes.

Eu me pego perguntando porque faço certas coisas, parte de ser feminista e buscar visibilidade para minorias é fazer parte de uma luta que parece que nunca vamos ganhar. Nós tentamos fazer o que achamos certo, mas no final parece que não chegamos no final de verdade, naquele que poderíamos ter se as coisas fossem diferentes.

Mas ao ter o final pacifista depois, o que eu vejo é Undertale me dizendo pra não desistir, evite violência, pense nos outros, evite ser egoísta. Toby Fox não tem como saber o nosso final, é verdade, mas às vezes nós precisamos que alguma coisa além de nós venha e nos dê vontade de continuar, seja um amigo ou seja uma história.

Junto com isso, Undertale nos dá um grupo de personagens que poderiam ser várias partes de uma mesma pessoa. A cuidadosa que às vezes não percebe o quão invasiva pode ser. O que faz as coisas pro bem, mas com métodos complicados. O que finge que se acha, mas é super inseguro. Aquela que é capaz de muito, mas a timidez acaba impedindo muita coisa… Isso tudo pode ser parte de uma mesma pessoa em momentos diferentes na vida.

Quando digo que Undertale era o que eu precisava na hora que eu precisava, um jogo que me marcou, é porque num momento nada fácil eu tive a chance de conhecer uma história que me fez questionar e conhecer coisas sobre mim. Eu não sou a única, no tumblr e no reddit os depoimentos não acabam, as discussões acontecem desde que o jogo saiu. Undertale é um jogo sobre Frisk enfrentando monstros, seja por conversa ou por batalhas, mas também é uma chance do jogador conhecer seus próprios monstros, e como Undertale já nos disse, não necessariamente os monstros são coisas ruins, alguns só parecem durões, mas quando conhecemos, vemos que não é bem assim, que aquilo pode ser muito mais.

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11 comentários sobre “Undertale: O jogo certo na hora certa

  1. o jogo é bom mas depois que eu zerei o modo genocida eu não consigo mais jogar fica uma tela preta e não acontece nada preciso de ajuda

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  2. Você tem a opção do true reset não? Mas mesmo assim o jogo não esquece a play genocida. Acho que se você apaga o arquivo de save do seu pc dá pra jogar de novo como se nada tivesse acontecido

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  3. Como o colega la em cima, eu terminei a rota do genocidio, e só fica uma tela preta sem eu poder jogar, mas, esse negocio de save que vc falou, onde fica? Como encontro? Explica pf

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  4. Você diz depois que a Chara toma controle de tudo? Pelo que eu sabia, sempre que você reiniciava o jogo a Chara fala com você e pede sua alma, daí você só consegue voltar a jogar se der. Tipo aqui https://www.youtube.com/watch?v=j9aHXzft-_Y
    Caso isso não esteja rolando você pode também apagar o save do seu computador, eu nunca tentei, mas dizem que é o único jeito de apagar completamente uma playthrough de Undertale (isso se você quiser também né)

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  5. É lindo demais esse jogo,um dos melhores que já joguei se não o melhor.Me emociono só de lembrar da história,dos personagens.Eu me reconheço em certos momentos do jogo tanto na rota pacifista quanto na rota genocida(mas quando eu sinto raiva,com vontade de simplismente acabar com tudo).

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  6. Ei pessoal! estou no CORE e necessito de ajuda… estou na rota genocida, ja matei todos os monstros, faltando 15…. quando vou procurar esses 15 n encontro nada! qual o melhor lugar do CORE/Hotland que tenha monstros ainda?

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