O problema com as mulheres em The Witcher

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The Witcher é uma franquia muito conhecida e com muitos fãs. Ano passado The Witcher 3 foi eleito o jogo do ano. O RPG de fantasia medieval tem como protagonista o bruxo Geralt de Rivia. Nesse universo, os “bruxos” são pessoas geneticamente modificadas para ficarem mais fortes e ganham a vida matando monstros.

Apesar de nunca ter jogado, eu via certas coisas dos fãs que me dava muita preguiça do jogo. Como fã da Bioware, já acompanhei muitas discussões de fóruns que falavam de Mass Effect ou Dragon Age. Não era incomum ver algum gamer machista reclamando que, ao incluir diversidade, a Bioware estava tentando fazer aqueles jogadores terem “vergonha de serem homens héteros” e eles iam jogar um jogo que “não tentava envergonhar os homens héteros: The Witcher”. Considerando que uma das coisas que fez a Bioware ganhar meu coração é exatamente o fato deles tentarem sempre melhorar a representatividade, automaticamente eu criei uma birra com The Witcher. Afinal se aquele tipo de fã gostava, não sei se eu ia querer jogar.

Mas fã preconceituoso tem em qualquer fandom, infelizmente, então nos últimos meses decidi que ia jogar a franquia toda. Mesmo com esses comentários, muitas pessoas me diziam que The Witcher era realmente muito bom.

Fico muito feliz de ter superado a birra porque a franquia é de fato incrível, principalmente The Witcher 3. É um RPG de fantasia medieval com escolhas difíceis, história interessante, personagens cativantes… É com certeza uma das melhores franquias que joguei na vida.

Mas nem tudo são flores. Apesar de ser um jogo tão legal, não me surpreende tanto que a base de fãs seja composta por tantos gamers machistas. The Witcher tem sérios problemas com a representação das mulheres, mesmo nos jogos mais recentes. É ainda mais triste quando percebemos que muitas das personagens de peso para a história funcionar são mulheres, mas mesmo assim os estereótipos aparecem.

Esse é mais um daqueles exemplos de coisas que podemos amar mesmo vendo os problemas. Adorei mesmo passar essas semanas como Geralt de Rivia, mas nem por isso vou ignorar certos erros do jogo. É complicado ver um jogo tão bom em vários aspectos errar nessas partes. É também frustrante ver que o melhor jogo do ano de 2015 comete tantos erros com suas personagens mulheres.

Eu fiz questão de jogar todos os três jogos e as DLC antes de falar qualquer coisa para evitar o “você não conhece a franquia” ou “mas depois melhora” (não sei se vai ajudar, mas a gente tenta). Também entendo que os jogos são baseados em livros e talvez os originais sejam machistas. Primeiro precisamos lembrar que esses jogos são adaptações e mudanças são normais, ainda mais considerando que, pelo que andei lendo, muitos fãs dos livros falam que os jogos são bem diferentes. Segundo que alguns pontos machistas do jogo são coisas que não apareceriam na literatura, mas são usados em mídias como o videogame.

Caso você não tenha jogado nada de The Witcher ainda e quer saber se deve começar a jogar sem tomar spoilers, o que eu posso dizer é que a franquia é muito boa, ainda mais para quem é fã de RPG e fantasia medieval, então é um título que eu recomendo, mas saiba que você vai encontrar estereótipos e objetificação de mulheres no jogo.

Eu vou dividir essa postagem em tópicos, um para cada jogo e no final algumas considerações pontuais sobre as DLC de The Witcher 3, assim você pode evitar spoilers caso não tenha jogado algum deles.

  • The Witcher 1

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A primeira coisa que me chamou atenção é que o jogo não tinha nenhuma mulher witcher. Todos em Kaer Morhen eram homens, a única mulher era Triss, mas ela é uma feiticeira. Lembrando que bruxos nesse mundo são matadores de monstros, os que usam magia são feiticeiros. Além disso, a roupa da Triss tem decotes nada apropriados para batalhas. Sim, eu sei, os que usam magia normalmente ficariam na linha de trás da luta, mas mesmo assim, qual era a necessidade?

Geralt precisa fazer uma poção para ajudar Triss no começo do jogo. Depois que o protagonista ajuda a feiticeira, eles começam a conversar. Geralt tinha perdido as memórias, mas Triss deu a entender que eles tinham um caso. Eu adoro um romance em videogame, então escolhi a opção para os dois ficarem juntos. Eu esperava uma cena dos dois se pegando, mas o jogo conseguiu me surpreender, não em um bom sentido. Quando eles ficam juntos, aparece uma carta na tela com Triss seminua.

Cada mulher que Geralt tem alguma coisa no The Witcher 1 faz o jogador ganhar uma carta. A imagem é sempre da mulher em questão seminua, numa posição muito objetificada. Porque afinal de contas é isso que mulheres são, objetos e conquistas para serem colecionadas por homens (/sarcasmo). Sério, meus olhos giraram tanto que acho que vi meu cérebro. O jogo cria uma ideia de que Geralt é o grande pegador, é óbvio que isso depende também das escolhas que o jogador faz, já que é um RPG, mas essa imagem existe mesmo assim.

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Sim, isso é do jogo, não é fanart.

O jogo possui personagens mulheres interessantes e de peso para a história, mas às vezes parece que elas só estão ali para Geralt pegar e aumentar sua coleção de cartas. Sem contar que às vezes essa é a única maneira de avançar numa missão. Uma das missões secundárias é sobre um cavaleiro buscando por sua irmã perdida e você encontra uma mulher parecida em um bordel. Depois de esgotar todas as opções de diálogos, só tinha a opção de ir para cama com ela. Não sabia se era isso que ia liberar o resto da missão, então fiz e descobri que sim, Geralt precisava fazer sexo com ela para completar a missão. A desculpa é que só aí ele vê as marcas de vampiro no pescoço dela, mas isso podia ser lidado de inúmeras formas diferentes.

Temos também um triângulo amoroso. Durante o jogo ficamos próximos de Triss e Shani, uma médica que está ajudando os doentes de Vizima. Enquanto Geralt precisa descobrir porque Kaer Morhen foi atacada, ele encontra um garoto chamado Alvin e seus poderes são importantes para a história. Em dado momento, depois que você já conheceu Triss e Shani, já as ajudou e o jogo já te deu a chance de romance com as duas, Alvin desaparece. Geralt precisa decidir como salvá-lo e o que fazer depois. É nesse momento que a coisa começa a ficar irritante. Triss e Shani brigam com Geralt, cada uma diz acreditar que é a melhor pessoa para cuidar de Alvin. Mas a real é que essa discussão não é sobre Alvin, é uma briga para ver quem fica com o Geralt. Sim, as falas são sobre o Alvin, mas o jogo coloca de forma que parece muito mais as duas mulheres brigando para ver quem vai ficar com o protagonista.

As personagens são incríveis, Triss é uma feiticeira poderosa e Shani é uma médica reconhecida e inteligente. Nenhuma delas precisa brigar pra ficar com Geralt, mas o jogo as coloca nessa situação, inclusive Shani fala de Triss com xingamentos bem misóginos. Caso você ainda não ache que a discussão seja sobre isso, vamos pensar no que acontece depois. Como Alvin tinha poderes mágicos, eu achei que deixá-lo com a Triss fosse a melhor opção, já que ela também tem o dom da magia. Isso fez com que Shani nunca mais olhasse na cara de meu Geralt, ela inclusive diz “vai voltar pra sua feiticeira”. Isso não é sobre Alvin, é uma briga clichê de triângulo amoroso. Sem contar que o jogo não desenvolve nenhum motivo para as duas se odiarem, elas simplesmente não se gostam e dá muito a entender que é ciúmes.

Depois dessas e de outras eu ainda dei o benefício da dúvida. É um jogo de 2007, talvez a CD Projekt Red tenha percebido os erros e melhorado, né? Erm… Não.

  • The Witcher 2: Assassins of Kings

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Não vou ser injusta e dizer que o jogo não melhorou algumas coisas. Não temos mais o triângulo amoroso e agora as mulheres parecem ser menos reduzidas ao estereótipo de interesse romântico para Geralt. Ah sim, também tiraram as cartas depois das cenas de sexo.

Geralt passa a primeira parte do jogo com Triss e Roche. Pode ser o jeito que eu joguei, mas me pareceu que as opções de “pegador” tinham diminuído e as interações com as mulheres faziam mais sentido do que antes. O jogo cria um clima para que Geralt e Triss fiquem juntos, mas a personagem parecia estar menos interesse romântico e mais Triss. Pelo menos no começo.

Como já mencionei antes, Triss é uma feiticeira poderosa, o primeiro jogo fez questão de mostrar isso. Ela também fazia parte do Lodge (um grupo de feiticeiras) e era da corte de Foltest por um bom tempo, sem contar as conquistas que ela faz em The Witcher 3. Triss não é uma donzela indefesa, ela é uma feiticeira forte e inteligente, mas a narrativa vai tirando isso dela depois da primeira parte do jogo.

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Depois que Geralt resolveu ajudar Iorveth ou Roche, descobrimos que Triss foi capturada por Letho porque ela sabia como transportá-los rápido para fora daquela cidade. Eu entendo que bruxos são mais fortes que a maioria e faz sentido Letho ganhar a luta contra Triss, mas será que o jogo precisava mesmo colocar a personagem nessa situação? Nós não encontramos Triss de novo até o final do jogo. Geralt não precisava da motivação de “salvar a namorada” para continuar, ele já tinha a motivação de limpar seu nome e achar o assassino do rei. A gente pode até pensar que tiraram Triss dessa parte do jogo por causa de Philippa. É possível que Triss tivesse descoberto os planos de Philippa antes de todo mundo, o que comprometeria o timing do jogo, mas o roteiro poderia ter colocado ela só descobrindo do plano mais ou menos na hora que Iorveth suspeita que tem algo errado, afinal Philippa parece ser mais forte e mais experiente que a maioria das feiticeiras, seria aceitável Triss não perceber a manipulação de Philippa imediatamente.

Como eu disse antes, de fato o estereótipo da mulher como interesse romântico diminui, mas entra outro. Praticamente todas as mulheres do jogo são colocadas como traiçoeiras, falsas e manipuladoras. E não, isso não acontece com a maioria dos homens. O jogo cria uma ideia de que toda a mulher está armando alguma coisa, e antes que você me acuse de exagerar, o próprio codex do jogo diz isso.

E sim, eu sei o que você vai dizer: “O codex foi feito como se fosse escrito pelo Dandelion”, mas quem escreveu e colocou aquilo no jogo foi um dos desenvolvedores do jogo. E já que estamos falando de codex, quase toda a página de codex no jogo sobre mulheres fala da beleza delas. Se não me engano, o único personagem homem que tem um codex que menciona a aparência é Iorveth, já que elfos são considerados muito bonitos, mas ele tem uma cicatriz no rosto. Eu gosto que o codex seja escrito como se fosse um personagem que fez, mas todas essas coisas são desnecessárias e diminui mais o papel das mulheres no jogo.

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Parte destacada: “…Dando origem à ideia de que os crimes das feiticeiras são responsáveis pela desconfiança geral contra essa profissão e talvez também contra o gênero feminino”. 

Voltando ao estereótipo da mulher traiçoeira, praticamente todas as mulheres do jogo traem alguém ou são suspeitas: Sile, Cynthia, Philippa… E sim, mulheres podem ser ruins e vilãs, eu acho Philippa uma excelente personagem exatamente por isso, mas o jogo coloca praticamente todas nessa posição de “cuidado Geralt, você não pode confiar em mulher”. Há poucas mulheres consideradas “confiáveis” que tem um papel grande no jogo: Triss, que é a “mina” do protagonista, e Saskia, que é um caso específico.

A descrição de Saskia é: Uma matadora de dragões que quer governar Vergen, trazendo igualdade entre humanos e não humanos. Eu nem tinha visto a personagem e já estava apaixonada. Saskia é incrível, ela enfrenta os nobres de outras regiões sem medo, mesmo que suas terras tenham um poder de fogo muito menor, mas sua representação também tem problemas. Primeiramente, além de matadora de dragões, ela é conhecida como “a virgem”, porque aparentemente as relações sexuais dela são relevantes para a história do jogo (spoilert: não são). Segundo, ela é uma guerreira que usa uma armadura com decote. O jogo praticamente não tem mulheres guerreiras, The Witcher propaga o estereótipo da fantasia medieval que a mulher no campo de batalha precisa fazer parte de alguma classe mágica. Quando finalmente aparece uma mulher guerreira, ela está de decote? Isso vale para Ves também.

A narrativa diminui Saskia. Logo depois que conhecemos a matadora de dragões, ela é envenenada e fica boa parte daquele arco desacordada. E quem precisa juntar os elementos para salvá-la? Sim, Geralt, porque aparentemente o único incentivo que os roteiristas do jogo imaginam para o protagonista continuar a aventura é salvar uma mulher. Tudo bem, trazemos Saskia de volta com a ajuda de Philippa, mas ela está… Diferente. O que aconteceu é que enquanto Philippa curava a matadora de dragões, ela também colocou um feitiço para controlá-la.

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No final do jogo descobrimos que Saskia estava mentindo: ela não tinha matado dragão nenhum, ela era um dragão. Eu amei essa virada na história, mas não posso negar que meio que reforça a ideia da mulher mentirosa, apesar de que nesse caso específico o jogo não parece colocá-la como malvada por isso. E não, ela ser um dragão não justifica o decote na armadura, ela se regenera rápido, mas ela queria se passar por humana. Mesmo que o conceito de Saskia seja muito legal, ela passa boa parte do jogo desacordada ou sendo usada como fantoche.

E aí temos Philippa. Eu acho ela uma vilã incrível, não acho que tenha qualquer problema em ela simplesmente ser má e tentar manipular todo mundo, o problema é que a maioria das mulheres do jogo são colocadas nessa posição de suspeita. Além disso Philippa acaba virando a “feiticeira do mal sexy” em alguns momentos. Uma das partes do feitiço para trazer Saskia de volta é colocando uma pétala nos lábios e beijando a matadora de dragões, e aí nós literalmente temos um anão do lado dizendo “esse é meu tipo favorito de magia: lesbomancia”. Não tinha a menor necessidade disso. E claro, a cena dela e Cynthia juntas, seminua, que Geralt vê “sem querer”, completamente feita para o olhar masculino.

O jogo também ainda adiciona uma ideia de “mulheres feiticeiras são malvadas”, no melhor estilo época medieval que queima bruxas quando “descobrem” que o Lodge está por trás da morte dos reis (e está, mas foi armação de Nilfgaard). O jogo mostra várias cenas dessas mulheres sendo mortas só por terem magia, seminuas em posição de perigo ou passando por momentos muito violentos. Pra mim a cena mais forte do jogo foi Radovid mandando arrancarem os olhos de Philippa. Eu sei que é um jogo que fala sobre uma sociedade violenta, mas é um problema atrás do outro.

  • The Witcher 3: Wild Hunt

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Ah, o jogo do ano de 2015! Eu imaginei que nesse veríamos uma grande melhora. De fato há mudanças, as personagens parecem serem mais independentes de Geralt e participam ativamente da história, sem contar que a pessoa mais poderosa de todos os mundos é uma mulher: Ciri. Mas mesmo assim o jogo insiste em alguns erros que voltam a incomodar.

Além dos decotes e roupas que não parecem muito práticas nas mulheres, todas elas usam salto. Sim, inclusive Ciri, a guerreira do jogo. Eu não reclamaria tanto se só as feiticeiras usassem saltos, apesar de continuar não achando prático, mas a moça que tem que passar boa parte do tempo correndo também usa? Sem contar que Ciri, que entra em combate direto com várias pessoas e criaturas, usa uma blusa aberta com parte do sutiã aparecendo. O jogo ainda tenta colocar Roche dando uma bronca em Ves por usar decote no meio de uma luta, o que é uma tentativa meio ridícula de diálogo considerando que foram os próprios desenvolvedores que colocaram aquela roupa nela.

The Witcher sempre teve violências desnecessárias com mulheres e isso não diminui aqui, ao invés de Philippa perder os olhos, no terceiro jogo temos uma cena que, se quisermos todas as informações e terminar da melhor forma possível, precisamos ouvir um torturador arrancar as unhas de Triss. Eu gosto da evolução de Triss nesse jogo, ela que lidera a fuga dos feiticeiros de Novigrad, mas esse momento de violência me pareceu muito gratuito.

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Aí temos a maravilhosa Yennefer, que é certamente uma das minhas personagens preferidas do jogo. Ela não passa por situações de grandes apuros, é verdade, mas em compensação ela é a “chata mandona”. Yennefer acredita que os fins justificam os meios e os próprios bruxos a julgam por isso, mesmo agindo de forma similar. Quando ela chega em Kaer Morhen os bruxos não perdem tempo e já reclamam para Geralt que ela faz o que quer, de repente todo mundo esqueceu que estão numa corrida contra o tempo. Inclusive o Vesemir tem um diálogo que diz “eu sei que ela é o que chamam de mulher independente, mas e a educação?” o que é de girar os olhos. Adoro o Vesemir, mas assim não dá para te defender migo. Não é só uma vez que reclamam de Yennefer para Geralt, são várias, e as respostas dele ficam muito no “ela é mandona, mas eu gosto”. Sabe aquela coisa de “se um homem é firme no trabalho ele é muito bom e se a mulher é assim ela é mandona”? A narrativa parece reforçar isso em Yennefer.

Eu vou até dar uns pontinhos para o jogo por mostrar uma linha de diálogo que Yennefer mostra seu ponto de vista e entendemos um pouco o porque dela ser assim, mas uma frase faz muito pouco contra um jogo todo. Eu amo a Yennefer exatamente por ela não agradar os outros, acho ela uma personagem muito interessante, mas o jogo não mostra muito o lado dela. E aproveitando que entramos nesse assunto, vamos falar de uma das missões que representa exatamente meu problema com o jeito que as mulheres são tratadas pela narrativa.

Em uma das missões principais, falamos com o Barão Sangrento. Precisamos de informações sobre Ciri, o Barão viu ela há um tempo atrás, mas como ele é um personagem de RPG, não pode dar a informação que você quer imediatamente. Geralt descobre que Anna, esposa do Barão, e Tamara, a filha, estão desaparecidas. Ao longo da missão descobrimos que elas não sumiram simplesmente do nada. O Barão batia na mulher constantemente e ela já não aguentava mais, por isso quando descobriu que estava grávida novamente, fez um pacto com as bruxas da floresta (que no caso não são o feminino dos bruxos do jogo) para abortar a criança. Só que pacto com essas bruxas nunca sai barato e quando Anna e Tamara finalmente fogem do Barão, a esposa é pega pelas bruxas e levada para o meio da floresta.

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Mais tarde você precisa fazer um favor para as bruxas e matar um espírito da floresta, matar ou libertar o espírito afeta diretamente o destino de Anna. Eu resolvi matar o espírito, isso faz com que Geralt descubra que a Vó que vive com os órfãos na floresta na verdade é Anna. As bruxas vão embora dali e Anna enlouquece. Quando a encontramos, o Barão insiste em levá-la para uma cidade longe que tem alguém que pode curá-la. Por mais que Tamara seja contra no começo, por odiar o pai, as pessoas de seu novo grupo dizem que ela deve deixar a mãe com o Barão, afinal “ele está arrependido”. Sim, é sério.

O Barão é sempre apresentado como um cara legal, um quase amigo de Geralt, o cara que ajudou Ciri quando ela precisou, daí quando descobrimos que ele batia em Anna ele se mostra como terrivelmente arrependido. Para piorar, o jogo cria uma narrativa de redenção para ele. E caso você liberte o espírito, Anna é uma das pessoas mortas em sua fúria e o Barão comete suicídio ao descobrir a verdade. Quer dizer, o cara que bate na mulher pode ter um arco de redenção dependendo das suas escolhas, mas a mulher abusada e que aborta? Ah não, aí ela morre ou enlouquece e volta para o marido abusivo. Afinal ele se arrependeu, tadinho, mas ela que é punida por ter abortado e ter agido no desespero quando fez o pacto com as bruxas. Eu acredito muito que pessoas podem errar e se arrepender, mas normalmente quando o homem agride sua esposa uma vez, ele vai fazer isso de novo. Particularmente acho arcos de redenção muito importantes e válidos, mas se The Witcher queria falar disso, não colocasse na mesma missão que lida com violência doméstica. Aparentemente o jogo acha mais relevante humanizar o Barão do que Yennefer.

Há outras coisas que podemos citar que já aconteceram em outros jogos da franquia: Excesso de nudez para o olhar masculino, incluindo uma cena das bruxas “sensualizando” nuas enquanto bebem sangue. A volta do triângulo amoroso entre Triss e Yennefer, que é melhor escrito se comparado com o The Witcher 1, mas ainda é desnecessário.

Eu sei o que você pode pensar, o mundo de The Witcher é um mundo de fantasia que fala de injustiça, de violência e de uma sociedade machista. Mas como eu disse lá naquele texto do machismo na fantasia medieval, você pode fazer uma sociedade machista sem uma narrativa machista. A Triss não precisava ser torturada, a Anna podia ter ao menos uma opção de final feliz como seu agressor teve, Priscilla não precisava ter apanhado para mostrar o sofrimento de Dandelion, etc. Sim, The Witcher 3 acerta em alguns pontos, há uma missão de uma mulher ferreira provando que é melhor que o homem e Cerys pode se tornar a governante de Skellige, além do jogo colocá-la como a mais competente desde o começo, mas esses pontos positivos não apagam os negativos.

  • Heart of Stone e Blood and Wine

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As DLC de The Witcher 3 são muito divertidas, mas elas não deixam de cometer erros. O design de muitas personagens mulheres continua sendo sexualizado, cheio de decotes e saltos desnecessários. Em Blood and Wine, Anna (que não é a mesma Anna esposa do barão), a senhora de Toussaint, diz que vai acompanhar Geralt em uma missão e ela mesma fala “espere, vou colocar uma roupa mais confortável”. A roupa inclui um salto. O cara que faz a roupa das mulheres de The Witcher provavelmente tem um fetiche por saltos, porque não é possível.

Em Heart of Stone temos uma missão que lembra a do Barão em alguns aspectos. Geralt precisa realizar três pedidos de Olgierd e um deles é pegar a flor que ele deu para sua esposa há muito tempo atrás. Geralt vai até a antiga mansão dele e descobre que ele e sua esposa, Iris, eram muitos felizes, mas os pais de Iris não os queriam juntos, então Olgierd faz um acordo com o Mestre dos Espelhos porque não queria perder a esposa, mas isso o faz ir perdendo a humanidade (coração de pedra, há!) o que faz com que Olgierd machuque pessoas ao seu redor, incluindo Iris. Ela continua amando seu marido e acreditando que ele pode mudar, mas termina seus dias apodrecendo em sua mansão depois que Olgierd a abandona, esperando por ele.

Como boa parte das mulheres de “coração partido” no jogo, ela vira um espírito inquieto de vingança, mas nessa missão especificamente nós temos a chance de dar um destino um pouco melhor para aquela mulher. No final nós podemos pegar a flor e fazer o espírito de Iris finalmente descansar. Engraçado que Olgierd fez um acordo bem ruim no desespero e é humanizado pelo jogo, mas a esposa do Barão não tem o mesmo tratamento.

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Em Blood and Wine a coisa me pareceu um pouco melhor. Apesar de Syanna ser uma vilã que é odiada por boa parte dos personagens, o jogo consegue humanizá-la melhor e até fazer um arco interessante dependendo das escolhas do jogador. Mas em certo momento, no final da DLC, quando Geralt está correndo contra o tempo para salvar Toussaint, Syanna pede para ele um “último pedido já que ela pode morrer” que é sexo com o bruxo. Porque afinal de contas, é o que toda mulher pede para o cara mais próximo numa situação de vida ou morte como aquela (/sarcasmo).

Como eu disse antes, The Witcher é uma franquia incrível e, apesar de só ter listado coisas ruins, os pontos positivos são inúmeros, mas não dá pra ignorarmos esse tipo de narrativa e design que diminuem as personagens mulheres. Isso porque estou falando só desse aspecto, porque além de tudo The Witcher só tem personagens brancos, cis e com duas menções de personagens não hétero: Philippa e Cynthia, que é puramente para o olhar masculino, e uma missão secundária, que se não me engano é do terceiro jogo, que um homem dizia ser um monstro por ser gay, que nem preciso explicar o quão problemático é.

A solução não precisa ser necessariamente tirar todos os aspectos que eu comentei. Não tem problema mulheres serem malvadas, traiçoeiras, sensuais, ciumentas ou qualquer coisa parecida, o problema é essa repetição de estereótipos, é só existirem essas opções e certos elementos serem inseridos sem qualquer sentido.

Os jogos precisam pensar na representação de minorias. Já está na hora de criadores de universos fantásticos medievais largarem a tal da “fidelidade histórica” de uma época que nunca existiu. Precisamos parar de inventar desculpas e lembrar que não são só homens brancos cis e héteros que jogam videogames. The Witcher, eu te adoro, de verdade, mas assim não dá pra te defender.

 

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19 comentários sobre “O problema com as mulheres em The Witcher

  1. Amei o texto Clarice. Eu nunca joguei The Witcher. Já assisti um pedacinho do The Witcher 3, mas não fiquei com vontade de jogá-lo. Sempre tive a impressão de ser um jogo machista. Agora, após ler o seu texto, tenho certeza. Sinto repulsa só de pensar em vivenciar essas situações que vc descreveu.
    É uma pena que jogos tão aclamados como esse nos represente de forma tão retrógrada.
    Espero que os próximos jogos da franquia evoluam.

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  2. o jogo pode errar em questão de figurino, com decotes e tal mais se estamos falando de legitimidade na idade media machismo era normal tanto quanto essa palavra nem existia, pode parecer repulsivo em pleno seculo 21 mais naquela época isso era comum então não vejo so com olhos de erro e sim como legitimidade. mais isso e minha opinião assim como a sua

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  3. Então Bruno, o problema é que esse argumento de “legitimidade” não cola. Não tinha Witchers na Idade Média, nem dragões, feiticeiras, vampiros, demônios, viagens no tempo ou caçada selvagem que congelava tudo no caminho. Por isso o gênero é “fantasia” e não “romance histórico”. Se pode ter essas coisas todas, por que também não pode ter uma narrativa mais inclusiva? No mais, já falei sobre esse assunto melhor aqui http://collantsemdecote.com.br/machismo-na-fantasia-medieval-e-o-naquela-epoca/

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  4. Eu respondi com argumentos, você pode ter a opinião que quiser sobre eles, mas falar que isso é forçar porque não concorda é no mínimo incoerente. Se não quer argumentar e não sei nem porque tá aqui no blog.

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  5. Meu nada haver, o jogo é baseado na idade media porém com fantasia, concordo que as vestimentas não são apropriadas, mas o machismo na idade média era predominante, então sim, é um jogo onde sexo é presente, e na idade media eles tratavam as garotas como objetos, não é um defeito dos desenvolvedores, só retrataram a triste realidade, é um dos melhores RPG’s, bate de frente com Skyrim (que eu recomendo muito para vocês jogarem)

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  6. É um defeito sim quando você lembra que essa história é uma mídia de entretenimento lançada em 2015. Também é um defeito considerando que a fantasia medieval não precisa ser fiel ao nosso tempo medieval. Canso de falar, mas vamos de novo: Se os escritores estão dispostos a mudar a nossa época medieval colocando dragões, elfos, feiticeiras e outras coisas que definitivamente não existiam, qual o problema de fazer modificações para o jogo ficar mais inclusivo na questão de misoginia? O problema é preguiça e preconceito. Engraçada essa “triste realidade”, ela é tão fiel que tem até witcher lutando contra a caçada selvagem.
    The Witcher é um ótimo rpg, isso não significa que não vou criticar quando cometerem erros desse jeito. Skyrim, que sim já joguei, tem muito menos problema com esses assuntos, por exemplo.

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  7. Eu achei esse seu texto meio tendencioso, você ignorou alguns pontos contando por exemplo o Gerald “babando o ovo” da yennefer a franquia toda, ou o cara que morreu apaixonado pela Ciri e ela pouco se fodendo pra ele, eu poderia pegar esses dois exemplos e dizer que o jogo passa a imagem que os homens são otários e que fazem de tudo para poder agradar uma mulher. Sobre as mulheres usarem de decotes, infelizmente a sexualização é o material que mais se vende hoje em dia, e não apenas na indústria dos games mas também no cinema e na música com uma fifth harmony da vida por exemplo. Sobre as mulheres só usarem tamancos eu acho tão irrelevante como os homens só usarem botas. e sobre as mulheres serem torturadas ou terem finais infelizes, em um jogo de “RPG medieval com um tom dramático” elas acabaram não sendo as únicas que foram queimadas, multiladas e etc. Oque percebi é que você escolheu alguns pontos isolados e aleatórios dá franquia para poder defender a sua bandeira. Vivemos sim em uma sociedade machista, mas também não vivemos mais em uma sociedade em que todas as mulheres tem que viver sendo donas de casa servindo o marido e cuidando da família como algumas na historia de the wicher, e nem no mundo onde os homens tem que bancar e sustentar uma mulher por toda a vida. Existe sim alguns pontos misóginos em the wicher, mas você acabou exagerando ao ponto de algumas pessoas não quererem jogar o jogo. Não acho que se combata machismo com feminismo. e sim com direitos e deveres iguais para ambos. Foi mal pelo textão, abraços!

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  8. 1) Eu fiz uma análise com muito mais que dois exemplos, mas vamos lá. O Geralt é apaixonado pela Yennefer e sim, faz muita coisa por ela, mas há dois fatores importantes aí. Primeiro que o jogador escolhe as ações dele, então eu posso jogar um Geralt que agora pouco se importa com a Yennefer. Segundo que o Geralt mostra durante o jogo várias outras características além dessa, ele jamais é reduzido a isso. Quanto ao caso do cara apaixonado pela Ciri, é um caso que nem tem tanto espaço assim. Ah sim, a Ciri não devia nada para o cara. Um exemplo não sustenta padrão.
    2) Eu acompanho a indústria de entretenimento, eu sei bem o que as pessoas usam para vender seus produtos. Saber disso não significa que eu vou ficar quieta se existe algo que deve ser criticado.
    3) A diferença entre botas e saltos (que acho que foi o que você quis dizer com tamancos, já que eu falo dos saltos) é que dá pra correr com certas botas, com salto é muito mais difícil e doloroso. Ninguém que se movimenta como a Ciri escolheria um salto pra lutar.
    4) Novamente, estou falando de um padrão. Os homens no jogo tem muito mais chances de serem redimidos e opções de finais felizes.
    5) Não entendi qual a relevância da gente não viver em um mundo como o do The Witcher. Isso não adiciona em nada na discussão. O fato das mulheres hoje não serem obrigatoriamente donas de casa não muda nada, é só procurar dados sobre violência contra a mulher atualmente, por exemplo, pra ver que ainda tem muito machismo nesse mundo.
    6) Eu vou aceitar como um elogio que você acha que eu tenho o poder de impedir as pessoas de jogarem The Witcher, ainda mais considerando o tamanho do jogo, a quantidade de prêmios e o fato que eu mesma falo em vários momentos que a franquia é ótima. Pode ficar tranquilo, muitas pessoas, inclusive eu mesma, vão continuar jogando The Witcher.
    7) Por fim, vou colocar um trecho do dicionário aqui: Feminismo
    1. Doutrina cujos preceitos indicam e defendem a igualdade de direitos entre mulheres e homens.
    2. Movimento que combate a desigualdade de direitos entre mulheres e homens.
    3. Ideologia que defende a igualdade, em todos os aspectos (social, político, econômico), entre homens e mulheres.

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  9. Ainda estou achando os seus argumentos um pouco tendenciosos para fomentar um suposto mundo machista em The wicher. E mesmo que não seja algo recorrente no jogo a minha observação era de uma aparente fragilidade masculina de Geralt, já que ele fica toda a franquia nas mãos da Yennefer. outra fragilidade masculina, a de Skjall, o rapaz que foi expulso de sua terra natal por ser um covarde, ou um frouxo. Mas porque e por qual motivo ele ajudaria e arriscaria a sua vida por Cirilla, já que ele não também não devia nada a ela? Só porque pra ele ela era bonita? Existe sim muitos homens frouxos, mas quando um homem é frouxo por causa de uma mulher poderosa como Yennefer ou Cirilla, nesses detalhes do enrredo ficamos com aquela conclusão que sim, Os homens são frouxos. Já o barão sanguinario é um personagem “FDP” que todos ficamos com vontade de matar no jogo, eu achei ótima a sacada do pessoal de desenvolvimento em abordar esse tema de violência doméstica, algo que é muito raro em um jogo de videogame, pena que você acabou interpretando mal “na minha opinião”. Na parte em que eu disse que infelizmente a sexualização (que é praticado principalmente pelas mulheres) é algo que se vende, eu deveria ter detalhado e sugerido que as mulheres não usassem da sexualização para se promoverem, mesmo que isso vai de acordo com a sociedade atual em que as mulheres tem a liberdade de usarem oque quiserem, oque torna as suas críticas contraditórias, Porque você criticaria a indrustria em geral e as mulheres que se utilizam dá sensualidade para se promoverem e vender os seus produtos? não faz parte da mesma sociedade em que as mulheres tem o mesmo direito de usarem oque quiserem sendo decotes, míni saias, etc. Porque uma artista não poderia se utilizar da mesma liberdade? E nesse ponto que entramos no universo de the wicher em que as mulheres usam decotes e são independentes, oque quer dizer o jogo se passa em época medieval mas as mulheres se comportam como as dá sociedade atual, e isso pra mim seria um motivo mais de elogios do que de críticas.(O engraçado é que se as mulheres do jogo usassem roupas mais longas e com menos decote você podeira alegar que elas são oprimidas por um mundo machista de the wicher). E Ainda continuo achando irrelevante a Cirilla ter que lutar usando saltos ou tamancos, talvez seja o tipo de calçado mais utilizado no ceculo XIII, ou tipo de calçado favorito da personagem, o fato dela usar salto não deixaria ela mais “mulherzinha” ou fragilizada. Da forma em que você fala sobre o destino dos personagens me parece que você queria que as mulheres tivessem destinos felizes no jogo por serem mulheres. como se existisse um tipo de guerra dos sexos para ver quem que se dava bem ou mal no final, não cheguei a ver uma grande evidência que uma mulher acabou não se dando bem pelo simples fato de ser uma mulher, e sim pelo circunstâncias da história. Assim também como muitos homens são mortos e acabam se dando mal, Por exemplo: a Keira você escolhe o destino e o futuro dela, ao contrário de vesemir que tem morte certa, é claro que são fatos isolados mas só alguns exemplos que as coisas nem sempre são exatamente do mesmo jeito que você disse. A questão sobre a violência doméstica da sociedade atual não nesceriamente as mulheres são as únicas vítimas, desde sempre os homens sempre foram as maiores vítimas de assassinatos ou qualquer tipo de tortura e violência física. É claro que ver uma mulher apanhando de um homem é bem mais revoltante que ver um homem apanhado de outro homem ou um homem apanhando de uma mulher. Junto dos debates sobre violência físicas e sexual que as mulheres sofrem em casa, outra coisa que também poderia ser mais abordada é o caso de estupros nos presídios masculinos, que é algo que sempre acontece, é normal, faz parte do cotidiano nas cadeias, e sempre fica por isso mesmo. E Eu não disseee… em momento algum que vc proibiu ou recomendou que alguém não jogasse o jogo, Mas pelo Review que você fez sobre a franquia deu para entender que é um jogo bem misógino, e alguém vendo isso acabou desistindo definitivamente de não jogar, ou você não leu todos os comentários? E se mais pessoas leram e achou isso tão relevante de não quererem apoiar e comprar um jogo supostamente machista? Das coisas que vc interpretou sobre a franquia eu concordei com algumas, mas você acabou exagerando bastante e talvez não entendido o universo do jogo e nem a mensagem que ele queria passar. Você tem blogs e canal no YouTube, então isso já a torna uma formadora de opinião. abordar alguns assuntos com certa imparcialidade como percebi nesse texto, vão fazer talvez com que algumas pessoas que te acompanham ficarem um pouco radicais sobre alguns temas que você abortar. Realmente viver em um mundo machista e violento é motivo de revolta para muitas mulheres, mas agir com emoções e sem razão em alguns casos torna o movimento feminista na prática bem diferente do que está escrito no dicionário.

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  10. 1) A grande diferença do “homem frouxo” e dos estereótipos das mulheres no jogo é a frequência com a qual isso ocorre. A maioria das mulheres no jogo (das personagens mais evidentes, não falando de todo NPC que abre a boca uma vez) caem em algum estereótipo. Os homens não, eles têm uma gama muito maior. Um personagem “frouxo” não forma padrão. E eu não sei você, mas a trilogia que eu joguei não tinha Geralt caindo pela Yennefer o tempo todo, só em alguns momentos do terceiro jogo, e ainda assim dependendo de como o jogador interpreta o personagem, porque né, estamos falando de um rpg.
    2) Eu não tô afim de reescrever o que falei do caso do Barão, já fiz uma vez no texto, mas rapidamente já que você acha que eu interpretei mal: O abusador tem uma opção de final feliz, ele tem um arco de redenção, a esposa dele não tem possibilidade nenhuma de ser feliz e ela é a vítima. Não sei você, mas pra mim isso não é tratar bem a questão da violência doméstica.
    3) Eu já escrevi um texto sobre esse assunto, mas não devo ter linkado nesse aqui, então rapidamente: Uma coisa é uma mulher real, que existe e pode tomar decisões, escolher usar da sensualidade pra vender o que quer que seja. Afinal de contas, é uma escolha dela. No videogame não são mulheres reais, são personagens que representam algo. Se tivesse variedade nessas personagens, algumas que usam sensualidade e outras não, tudo bem. Por exemplo: Dragon Age 2 tem pelo menos três mulheres na equipe. Uma delas é bem sensual e as características da personagens fazem sentido com essa caracterização. As outras duas não são, porque possuem outras construções de personagens. The Witcher repete esse estereótipo várias vezes, sem pensar nas características das personagens que eles criaram. Personagens ficcionais não escolhem a própria roupa, são os desenvolvedores, de jogos nesse caso, que tomam essas decisões. Se eles colocam boa parte das mulheres com roupas sensuais, sem nem fazer qualquer conexão com a construção da personagem, é porque eles querem vender essa sexualização feminina que é um estereótipo ruim.
    4) Não importa em que século usavam saltos desse jeito, se é que usavam, The Witcher não se passa em século nenhum da história da humanidade, então fatos históricos pouco importam. Dito isso, as roupas precisam fazem sentido com a personagem, como já falei.
    5) A única personagem que eu reclamei de final feliz foi a vítima da violência doméstica, que não tinha uma opção de final feliz enquanto seu abusador tinha ao menos uma. Sim, homens morrem muito, mas nenhum homem morreu pelo fato de ser homem. Agora mulheres muitas vezes morrem por serem mulheres, crimes misóginos e de ódio, portanto essa sua comparação não faz sentido, é falsa simetria. Estupro de homens na cadeia é algo terrível mesmo e deve ser debatido, mas por que os homens cobram isso das feministas e não começam os debates eles mesmos, que sofrem essas agressões? O que nos afeta nós estamos falando, e inclusive quando falamos as pessoas nos chamam de exageradas.
    6) Eu não sei se você percebeu, mas esse meu texto fala especificamente de um aspecto do jogo, que são as personagens mulheres, não uma crítica do jogo como um todo. Inclusive no youtube, em que eu falei de forma mais geral de The Witcher 3, eu faço vários elogios. Já falei no outro comentário e no próprio texto que gostei e recomento o jogo, mas gostar de algo não significa que vou ignorar um problema. Imparcialidade seria se eu ignorasse os problemas do jogo porque gostei dele em geral. Não assuma que eu não entendi o jogo ou a mensagem só porque você não gostou do meu texto. Não é a primeira vez que você fala que eu sou exagerada e, já que diz que quer a igualdade dos gêneros, devia saber que mulheres ouvem o tempo todo que são exageradas quando incomodam homens.
    7) Eu trouxe o dicionário porque você diz que não se combate machismo com feminismo, quando na verdade é exatamente pra isso que o feminismo serve. Eu não entendo com que base você diz que eu escrevi qualquer coisa baseada em emoções. Na verdade eu escrevo meus textos baseados em análises de entretenimento, algo que eu faço, estudo e leio com alguma frequência. Você não sabe nada do meu repertório e me acusa de agir com emoção e sem razão só porque não concorda comigo. Até onde eu saiba quem deveria dizer como é o feminismo na prática são mulheres feministas, as pessoas que fazem parte do movimento.

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  11. Belíssima análise compreensiva da franquia nos games! Eu posso não concordar com tudo que foi dito, mas prefiro me focar no que concordo, que é a maior parte do texto. Por exemplo, as “sex cards” do primeiro jogo são a epítome da objetificação, ainda bem que os desenvolvedores parecem ter aprendido rápido pelo menos esta lição.

    Às moças que por acaso estejam deixando de jogar a trilogia pelos relatos de machismo, não posso culpá-las. O tratamento da CDProjekt quando o assunto é mulheres ainda deixa muito a desejar, principalmente se compararmos com o que a BioWare fez e faz em Dragon Age. Mas o pior do que você acaba vendo nos jogos foi descrito aqui pela autora, que não nega a qualidade muito elevada dos jogos. Peço para que, se quiserem, deem uma chance ao jogo, sem deixar de condenar onde eles acabam errando e pisando fora da faixa.

    Continue escrevendo!

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  12. Belo texto. Parabéns pela visão. 🙂
    Por mais garotas gamers como vc. Ou melhor, que o mundo dos games pense mais maneiras de atrair garotas gamers.
    Mas discordo de algumas coisas. Principalmente em relação as Feiticeiras. Acho que elas são daquele jeito na história justamente pq era o jeito delas sobreviverem naquele mundo cruel. The Witcher se passa em um mundo fictício, mas é um mundo baseado na idade média. Lá a vida não valia nada. Acho que na mente do pessoal da CD Project, pra uma mulher com poderes sobreviver naquela época, ela tinha que ser tudo isso que vc pontuo no texto. Acho que esse comportamento delas é uma questão de sobrevivência. É machista? PRA C@#@!%&! Mas bate com o ambiente criado por eles baseado na idade média. Que foi uma época que a mulher tinha quase nenhuma voz.
    Quanto ao fato do jogo não ter negros, acho que foi mais uma questão localização. Tipo, a historia se passa em um continente que tem mais brancos, mas o jogo tem um continente com pessoas de tez mais escura. Isso fica bem claro em Hearts of Stone. Eu (sendo negro), fiquei feliz ao notar esse detalhe. Pq mostrou que o mundo de The Witcher ainda não foi totalmente explorado, e em um possível próximo jogo, podemos ter algo focado nesse outro continente. 🙂
    Mas quando se trata da história do Barão, eu concordo 110% com vc.
    Aliás, a história do Barão tinha que ter desfecho TOTALMENTE. O mais coerente seria ele morrer tentando salvar a esposa, e ela e a filha retornarem pra Poleiro do Corvo pra governarem no lugar dele.

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  13. Entendo seu ponto de vista, mas.. sinceramente, convenhamos.. Se você fosse a roteirista do jogo, ele provavelmente seria muito chato. Isso porque você reclama de estereótipos mas paradoxalmente cria uma receita de bolo de como deveriam ser todos os homens e todas as mulheres. (Criou um estereótipo também).

    A Yennefer é uma bruxa velha super poderosa, corcunda e tão feia que mal se consegue olhar pra ela. Mas pode ser poderosa, ela pode manipular sua aparência pro jeito que ela quiser. Então ela quis ser linda e desejada. Não há nada de errado nisso. Mulher que quer dar no primeiro encontro? Mulher que só transa depois do casamento? Não faz diferença. O corpo é da mulher e ela faz dele o que ela quiser. Só acho errado vocês condenarem que homens sintam tesão em ver decotes por exemplo. Se o jogo fosse feito inteiramente por mulheres, nós teríamos um jogo que agradaria esse público alvo e teríamos homens reclamando que “poxa.. faltou uma roupinha mais sexy.. faltou o Geralt comer mais a mulherada.. ou faltou termos homens liderando situações importantes.. etc.”

    Se eu encontrasse uma Yennefer na vida real, me apaixonaria por ela instantaneamente.. A personalidade dela é muito marcante. Criaram uma personagem feminina que eu não lembro de ter visto em diversos outros jogos. No entanto vocês reclamam que ela é chata e mandona.. Deixa ser.. faz parte da graciosidade dela.

    A Triss também é apaixonante. Tanto que não “resisti” e acabei me interessando nas duas.
    Você esqueceu de dizer o que ocorre no final do jogo quando você acaba galanteando ambas.

    Sim.. as duas se unem bem ao estilo “Viva as mulheres”, e dão um toco duplo no Geralt.

    Terminei meu gameplay apaixonado nas duas, mas sozinho. rs

    Enfim, The Witcher é uma experiência única. Não há personagens rasos, nem perfeitos. Isso torna o mundo do jogo muito crível.

    Uma última reflexão.. Se o roteiro dos 3 jogos fosse todo adaptado pra suas sugestões sobre o tratamento das mulheres, será que teríamos outros textos como o seu, reclamando dos negros? Dos gays? Dos deficientes?

    Imagina um roteiro pra escolher vilões e mocinhos tendo que se preocupar em não ferir o sentimento de todas as raças, crenças, lados políticos.. e etc.

    Tentemos ser mais simples. Somos todos da mesma raça.. Somos da raça humana.
    Humanos erram e humanos acertam. (E aqui pouco importa se um gay acertando e um branco errando ou uma mulher batendo e o homem apanhando).

    Sejamos bons. E vamos melhorar esse mundão que abriga a toda a nossa diversidade.

    abs.

    Parabéns pela dedicação de jogar os 3 jogos antes de escrever. O mundo precisa de mais mulheres assim. =)

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  14. Olá Bruno,
    Eu não fiz uma lista de como montar uma personagem, apesar de que eu acho que alguns homens se beneficiariam disso, porque só sabem repetir o mesmo estereótipo. E caso você não saiba, estereótipo é um padrão que já foi repetido inúmeras vezes, então eu não estou criando isso quando critico uma forma machista de ver personagens.
    “Ela é uma mulher que pode usar o que quiser” não cola, Yennefer é uma personagem de um jogo, ela não escolheu suas roupas, foram os desenvolvedores homens que escolheram para agradar a audiência masculina, não é a mesma coisa que uma mulher real escolhendo sua roupa.
    Não sei se você leu tudo que eu falei no texto, mas eu disse que eu amo a Yennefer, ela é chata e mandona e eu adoro que ela seja assim, dito isso, o jogo a julga por isso o tempo todo e é isso que eu tô julgando aqui. Basta ler o que escrevi.
    De fato, The Witcher é um jogo muito bom e muitos dos personagens são bem feitos, mas eu não acho nada crível nessa caracterização das mulheres.
    Eu fiz um texto sobre mulheres porque sou uma e porque é a minoria que o jogo mais mostra, mas poderia sim ter um texto para as outras minorias que você aponta, se bem que o jogo finge que essas pessoas não existem, outro defeito (que também menciono no texto).
    É muito fácil falar para “ser mais simples” e “todos somos humanos” de um ponto de vista privilegiado. É muito fácil reclamar que “não podemos nos preocupar” quando você não é o grupo atingido sempre. Sugiro que reveja seus privilégios. Você pode gostar de The Witcher o quanto quiser, eu também gosto, mas isso não vai me fazer cega ao que o jogo errar. Somos todos humanos, mas a sociedade não nos trata igualmente. Se a preocupação com “não ofender ninguém” é tão preocupante para esses escritores homens padrão, então talvez o problema não seja no público que reclama, e sim que eles não têm criatividade de sair desses estereótipos

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  15. Clarice, obrigado por responder.
    Primeiramente, deixe-me esclarecer que eu li todo o seu texto sim. Posso não ter entendido tudo o que você quis dizer, mas eu jamais comentaria sem ter lido até o final. Seria um desrespeito ao tempo que você investiu estudando, pensando e escrevendo. =)

    Sobre suas ponderações, você também julga quando me coloca em posição privilegiada. Sem dramas da minha parte. Eu não estou nessa posição. Mas não vem ao caso.

    O que quis dizer com meu comentário é que o jogo tem sim situações machistas, mas tem também situações não machistas. (como o toco duplo que tomei no fim do jogo e que você deixou passar batido no seu texto.)

    Outra coisa que pode induzir seus leitores ao erro, é sobre o fato de Witchers serem apenas homens.

    Vou parafrasear um trecho de uma análise do jogo:

    “A transformação de um garoto em um um witcher envolve processos alquímicos e ingestão de componentes mutagênicos. Com essas modificações genéticas, os guerreiros tornam-se aptos a consumir elixires e ervas — extremamente tóxicas para pessoas comuns — que aumentam sua força e velocidade, acabam com a sensibilidade da dor, regeneram ferimentos, entre outras coisas.

    A ordem geralmente é associada ao sexo masculino devido ao fato de que quase 100% das garotas que passam pelo treinamento sequer sobrevivem à sua fase inicial.. No entanto, há exceções — raras — a essa regra, como bem prova Ciri, uma das personagens mais poderosas e importantes de toda a saga.” (Isso a globo não mostra.. rs)

    Meu ponto é que o jogo é equilibrado. Ainda que a história não fale muito de negros ou homossexuais (continente sem nome, planeta sem nome.. nem sabemos em que universo eles estão e estamos querendo incluir negros), ele trata bastante de preconceitos. Elfos se sentem superiores a anões (e trava guerras seculares só por conta disso). Bruxas são queimadas em nome da fé. Vampiros e Humanos tentam coexistir com todas as diferenças. (Mulher está contida em raça humana e não é uma raça independente).

    A história de Witcher é na minha opinião, tão boa, porque é totalmente crível. Religião, política, interações sociais, preconceitos, violência. Não é o que eu gostaria meu filho vivenciasse aqui na vida real. Mas se ela tinha intenção de parecer real, conseguiu.

    Acho injusto você dizer que a Yennefer não escolheu a roupa dela. O Geralt também não escolheu a dele. Nem o Dandelion, nem ninguém. Quem escolheu foram as 1500 pessoas de lugares diferentes do globo trabalharam na construção apenas do terceiro jogo, durante 3 anos e meio.

    Mas voltando ao que eu disse antes, a personagem Yennefer é uma feiticeira milenar, velha, concurda e muito feia. Mas ela tem poderes pra alterar sua composição física. Qualquer pessoa no lugar dela, penso eu, faria uma mudança pra melhor. Julgar o resultado da mudança é egocêntrico. Se a roupa está curta, longa, ou se ela quis ter 18 anos ou 35, pouco importa.
    Ela quis ficar bonita. E conseguiu. (Não tem como ela escolher pq ela não existe na vida real. Mas existisse, eu voto que escolheria.)

    Enfim Clarice, desculpe se fui irônico ou rude em algum momento, mas minha intenção foi colocar um contraponto ao seu texto. Quis apenas contribuir com a discussão, que é super válida e precisa ser feita

    Fonte do trecho em aspas:
    http://games.tecmundo.com.br/especiais/superespecial-conheca-mundo-the-witcher-3-wild-hunt_809938.htm (recomendo a leitura).

    Um abraço.

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  16. Algumas (poucas) situação não machistas não apagam toda a lista de coisas machistas que apontei, inclusive se você considerar que eu nem falei tudo porque se não o texto ia ficar maior do que já está.
    Quanto mulheres poderem ser Witcher, o jogo não mostra nenhuma em momento algum. A Ciri não passa por toda a modificação que os outros Witcher passam, mesmo que tenha tido o treinamento. No jogo, o que nós podemos ver, é que não há mulheres Witcher. Independente do que o lore fale, a representação não existe. E mesmo levando em conta esse trecho que você destacou: Por que as mulheres não sobrevivem? É explicado em algum momento? Acho que não, o que só prova como é uma decisão vazia por parte da história. O jogo tenta, em poucos momentos, falar de preconceito e falha em boa parte deles. E a questão não é o jogo falar de preconceito ou não, ele não precisa falar disso, mas como uma obra ficcional de 2015, é importante sim considerar que não são apenas homens padrões que jogam, então é interessante fazer personagens que representem outros grupos.
    Será que o mundo de The Witcher é tão crível? Porque no mundo real, apesar do que muitos acreditem, pessoas que escapam do padrão não são estereótipos ambulantes, mas em The Witcher boa parte dos personagens que não são homens padrão caem em algum problema de estereótipo.
    Não entendi qual é o ponto de destacar que a roupa dos personagens homens não foram escolhidas pelos personagens. É óbvio que não foram, mas nenhum dos exemplos que você deu foram sexualizados. O personagem nunca vai escolher a própria roupa porque ele não existe, por isso cabe ao time de arte escolher roupas que condizem com o personagem, com o universo e a situação e não se render pelo fetiche de “toda mulher usa salto alto, inclusive a que luta com espada” por exemplo.
    A questão não é a Yennefer ser bonita ou não, ela pode ser linda o quanto o designer quiser, isso não tem nada a ver com a crítica que eu fiz a personagem dela.

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