Men Against Fire | 3ª Temporada de Black Mirror

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Dirigido por Jakob Verbruggen, Men Against Fire (Engenharia Reversa) é um daqueles episódios que acontecem em um futuro que parece estar muito próximo. Stripe (Malachi Kirby) é um soldado que, junto com sua equipe, está tentando ajudar os moradores de uma certa região. Eles estão sendo atacados por criaturas que chamam de baratas, que parecem ser pessoas que foram contaminadas com algum tipo de vírus zumbi.

Men Against Fire é um episódio de guerra, então tudo na tela vai criar esse clima. É tudo muito cinza, sério, triste e pesado. O episódio vai falar sobre como a tecnologia pode ser usada para “aprimorar” os soldados na guerra. O problema é que essas mudanças que o ajudam a melhorar a parte do combate podem acabar afetando o lado que faz esses soldados serem humanos.

Devo assistir? Como estamos falando de guerra, é um episódio pesado e com algum nível de violência por causa dos combates. Há algumas cenas que talvez incomodem por um lado mais gráfico, incluindo tiros e facadas, mas isso não acontece durante o episódio inteiro. E não, não tem baratas de verdade.

O texto contém spoilers.

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Logo no começo do episódio, quando Stripe e os outros soldados vão para uma cidade, o público já recebe várias informações. Em um futuro próximo, um vírus parece ter atacado certas pessoas, que não são mais consideradas humanas e sim “baratas”. Os moradores daquela região estão assustados e querem muito que o exército resolva a situação. Então os soldados seguem seu caminho para eliminar os inimigos. Nada muito esquisito, né?

No meio da busca, encontram um cara vivendo em uma casa meio isolada. Medina (Sarah Snook), a líder daquele grupo, suspeita que aquele homem está escondendo baratas na casa dele. Enquanto ela faz o interrogatório, Stripe e Raiman (Madeline Brewer) começam a investigar a casa e descobrem que sim, tinha mesmo baratas ali. Os soldados vencem, mas antes uma das baratas coloca uma espécie de luz verde no rosto de Stripe.

Quando Stripe começa a ter problemas nos seus upgrades feito pelo exército, já sabemos que muito provavelmente é culpa da tal luz verde, mesmo que o público ainda não saiba muito bem o que está acontecendo. Além disso, Stripe também tem sonhos com uma mulher que imaginamos ser sua namorada, mas os sonhos também parecem estar com algum tipo de bug, porque aparentemente aquilo também é algo induzido pela tecnologia do exército.

Ao longo do episódio, vamos percebendo que algo definitivamente está errado com Stripe, mas ele precisa continuar seu trabalho. Na próxima missão, Stripe e Raiman invadem um lugar que está cheio de baratas, mas Stripe não encontra nenhuma, apenas pessoas sobreviventes de algum ataque. Ele tenta ajudar, mas percebe que Raiman está simplesmente matando tudo no seu caminho e nesse momento o público já suspeita o que realmente está acontecendo.

Stripe salva uma mulher e seu filho antes de ficar muito ferido e ela o leva para seu esconderijo. Antes de Raiman alcançá-los, a mulher dá as respostas que o público quer saber. As “baratas” são apenas pessoas, sem doença nenhuma, mas os soldados os enxergam de uma forma completamente diferente por causa do implante nas suas cabeças, portanto eles acreditam que aquelas pessoas sejam uma espécie de monstros ou zumbis. Os soldados estavam matando inocentes até agora sem saber.

Antes de Stripe conseguir fazer qualquer coisa em relação a isso, Raiman aparece, mata a mãe e o filho e arrasta o colega de volta para a base deles. Lá, Arquette (Michael Kelly) explica para Stripe e para o público as informações que faltam. Ele diz que, durante a segunda guerra mundial, apenas um em cada quatro soldados atiravam para matar os inimigos, os outros atiravam só porque tinham recebido ordens, mas tentavam não acertar. Isso é uma informação tirada de um livro publicado em 1947: Men Against Fire: The Problem of Battle Command, que provavelmente é da onde o episódio tirou a inspiração para o nome e as mensagens que queria passar.

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Baseado nesses dados, Arquette explica que o exército criou esses implantes para dar um “upgrade” nos soldados, assim eles atirariam para matar sempre. O ser humano sente empatia por outros como ele, o que torna o ato de matar muito difícil, mas quando você faz o inimigo parecer um monstro, você tira o efeito da empatia. O que é considerado uma qualidade da raça humana, para o exército é uma falha que precisa ser corrigida. Stripe termina tendo que decidir se quer ter suas memórias apagadas ou não, se ele não concordar, será preso.

O episódio é um dos que mais sofre com o aspecto de ser mais longo do que precisa. Não é só que os atos são maiores do que o necessário, mas a divisão deles não é das melhores. O público descobre a reviravolta do final muito cedo. A conversa final entre Arquette e Stripe correu um sério risco de ficar chata, ela funciona porque o assunto é pesado e os dois atores mandam muito bem, passando a tensão necessária.

Apesar da estrutura não ser das melhores, Men Against Fire carrega uma das mensagens de mais peso dessa terceira temporada. Quando terminei o episódio, não estava nem um pouco surpresa em ver o exército fazendo aquilo. Não acho nada impossível que, com mais tecnologia, as pessoas passem a ser mais vistas como coisas do que seres humanos, se é que já não somos dependendo do ponto de vista. E é assustador que isso não nos surpreenda tanto.

Infelizmente nós já vivemos em uma sociedade que não tem problema em exterminar quem é considerado como o “outro”. Sim, o ser humano tem empatia, mas quando alguém tem preconceito e ódio contra algum grupo, estes passam a serem vistos como “o outro” e a empatia vai embora. O episódio puxa mais para o lado xenofóbico, as “baratas” lembram pessoas do leste europeu, mas podemos usar essa reflexão para qualquer grupo oprimido da nossa sociedade. Na história da humanidade, muitas vezes o argumento de “eles são inferiores” foi usado para oprimir certos grupos, que é muito parecido com o discurso que Arquette faz sobre as “baratas” virem de uma linhagem ruim.

E no final das contas, quem realmente são os zumbis? Não seriam exatamente as pessoas que simplesmente agem por instinto, sem saber porque avançam ou odeiam? Os soldados que são essas pessoas controladas, e pela forma que os civis agem dá para perceber que eles também são manipulados de certa forma. Eles odeiam tanto as “baratas” quanto os soldados, mesmo sem implante. Olha esse nome! Barata é um animal que temos nojo, medo, repulsa e queremos exterminar. Os civis não tem os implantes, portanto as “baratas” não parecem monstruosas para eles, mas provavelmente não precisam. Tenho bastante certeza que nessa sociedade, como na nossa, tem uma mídia poderosa se certificando de que essas pessoas oprimidas sejam odiadas.

Men Against Fire não tem a melhor estrutura e entrega o jogo um pouco cedo demais, mas mesmo assim é um grande episódio. A história fala de preconceito, manipulação e como o ser humano tem empatia até certo ponto. É um tema muito importante de ser tratado, nossa sociedade ainda é muito preconceituosa e ainda vê grupos oprimidos como “outros” e “menos” que pessoas consideradas padrão. Perceber que a reviravolta desse episódio não é tão absurda reflete muito o que vivemos hoje.

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