“Não estamos sós” ou um desabafo no 8 de março

shepard

Desenho maravilhoso da Kaol da melhor salvadora da galáxia que você respeita

No 8 de março, dia internacional da mulher, eu normalmente escreveria algum texto sobre as personagens que me marcaram pessoalmente ou a cultura pop em geral, já que né, é sobre isso que eu falo. Estou participando da ação #WeCanNerdIt que você pode ver mais no último texto que eu escrevi. Mas esse texto é um pouco diferente.

Que ser mulher não é fácil todo mundo já sabe, ainda mais se você for uma mulher fora do padrão. São tantos tipos de opressões que podem acontecer que se eu listar todas, a gente não para hoje.

Pensando nas pessoas que criam conteúdo para a cultura pop em geral, as personagens femininas geralmente são um dos grandes assuntos no dia de hoje. Aqui mesmo eu já fiz duas listas para o 8 de março, comemoramos quando vemos uma representação legal e gostamos de pensar no poder de “fight like a girl” (lute como uma garota). Também celebramos as mulheres reais que trabalham nessa indústria que, como sabemos, não é fácil.

E que representatividade importa acho que vocês também já sabem. Não vai acabar com todos os problemas do mundo, mas tem sim o seu papel. Para mim, e talvez para você também, o fato dessas personagens virarem símbolos para algumas de nós, delas nos empoderarem tanto é porque nós somos diminuídas toda a hora na nossa sociedade e de todas as formas.

Revistas estampam modelos inalcançáveis, somos ensinadas a ficarmos quietas, dar espaço e preferência para o homem, abaixar a cabeça porque “mulher é assim”. Somos ensinadas a competir umas com as outras pelos menores motivos e ai daquela que resolver que quer mais que o espaço que a colocaram. As agressões estão aí de todas as formas, solidificando um sistema que ainda precisa de muito para ser quebrado.

Ficção às vezes acaba sendo um refúgio pra muita gente, pelo menos foi e ainda é o meu, então ver uma personagem de impacto que tenha algo parecido comigo parece um conforto no meio de tanto stress. Mas além das personagens ficcionais na cultura pop, eu também vejo as mulheres reais lutando por espaço nesse meio.

Lutar por um espaço em um meio dominado por homens, e não só o nerd, mas qualquer um que tenha essa característica, é enfrentar problema atrás de problema. É ser desmerecida pelo seu gênero, ser silenciada, ter seu trabalho menosprezado, perder espaço para um homem que pode não ser melhor do que você e é ser xingada ou agredida quando os homens não concordam com você. E isso cansa.

A invalidação das mulheres nesses meios é tão forte que as que são confiantes de seu trabalho são chamadas de arrogantes, enquanto os homens com o mesmo comportamento são encarados de forma normal. Isso quando a mulher consegue se valorizar, porque essa opressão está tão enraizada que muitas vezes nós mesmas nos colocamos para baixo. Quem nunca, né?

Eu sou formada em Rádio, TV e Internet, fiz alguns cursos de roteiro na minha vida e já escrevi roteiros. Toda a vez que eu preciso me apresentar eu ainda hesito para me chamar de roteirista, porque algo dentro de mim ainda acredita que eu não sou “merecedora” de me chamar assim. Eu provavelmente não teria essa dúvida se fosse homem. E quando me apresentam como roteirista essa dúvida vem tudo de novo. Tentar escrever, para mim, é sempre um desafio contra a minha própria mente de me convencer de que o que eu tô fazendo está bom, que eu sei fazer, mas o machismo nessa área criativa já me afetou de formas que né, às vezes é difícil.

Isso é uma droga. Nós precisamos ser mais bondosas com nós mesmas, nós não merecemos nos odiar e nos colocar para baixo dessa forma. Nós somos mais do que o espaço em que nos colocam. Somos boas, capazes e habilidosas, mas somos criadas para pensarmos o contrário.

Quadrinistas, escritoras, roteiristas, ilustradoras, fotógrafas, desenvolvedoras de games, jornalistas… Nós todas que trabalhamos com coisas nerd de alguma forma sabemos um pouco do que é isso, se não sabemos por experiência própria, sabemos porque vemos acontecendo ao nosso redor. E é difícil, porque se colocar na frente é também virar um alvo. Tem outro fator importante: sou mulher, mas sou muito privilegiada em outros pontos, então se para mim já existem essas dificuldades, outras mulheres passam por ainda mais coisas.

Não é fácil, mas nós amamos o que fazemos e queremos estar aqui, por isso cada vez mais encontramos mais mulheres e projetos nerd que me fazem realmente acreditar que algo está mudando. Porque com união faz a força, né? Eu mesma só estou aqui por apoio de mulheres, porque lá atrás, em 2015, quando eu não sabia que direção tomar com esse blog ou se tinha mesmo capacidade para escrever e criar, foram duas mulheres que me fizeram entrar nessa bagunça nerd e mais algumas que me acolheram. É trabalhoso, mas eu amo. Hoje há várias mulheres, pessoas que eu admirei de longe por algum tempo, que sabem quem eu sou, que estão lendo o que eu escrevo. Hoje, no meio de vários comentários babacas, recebo mensagem de minas pedindo ajuda, agradecendo e elogiando. E hoje eu tô aqui porque antes de tudo isso, tiveram mulheres me apoiando.

Eu não tenho uma solução para que nós, que agimos em áreas dominadas por homens, possamos ficar mais em paz e seguir atuando sem agressões. Como eu falei, isso aqui é um desabafo. Eu vejo muita coisa ruim, tanto nos estereótipos que ainda são perpetuados pela cultura pop, mas também pelo que muitas de nós ainda temos que enfrentar, mas eu vejo melhora, eu vejo mulheres agindo mais e eu sei que hoje, se eu tô aqui, mais confiante, foi em boa parte por causa de mulheres que me ajudaram.

E eu acho que talvez seja essa a mensagem que eu quero passar com isso aqui: Não é fácil, mas você não está só. É essa mais ou menos a sensação que queremos quando procuramos por representatividade, não? Sentir que nós não estamos sós, que existimos e que podemos sim. Eu vejo isso nas mulheres ficcionais, mas principalmente nas reais que, cada uma da sua maneira, continuam. Não é fácil e a gente não precisa ser forte sempre ou estar segura o tempo todo, isso é impossível, mas estamos aqui.

Nesse dia 8 de março, eu agradeço a todas as mulheres que me fizeram ser um pouco melhor, que me ajudaram a ter espaço quando eu não conseguia sozinha, que acreditaram e que estavam do meu lado. Eu homenageio você que fez isso por outras também e espero que eu consiga fazer isso por alguém. Eu desejo que cada vez mais as coisas melhorem, que sua voz seja ouvida, seu espaço seja reconhecido e que consigamos avançar em todas as outras questões também.

Sigamos lutando como garotas, somos fortes e não estamos sós.

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2 comentários sobre ““Não estamos sós” ou um desabafo no 8 de março

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