Machismo na fantasia medieval e o “naquela época…”

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Faz algumas semanas que começou a 6ª temporada de Game of Thrones e, como todo o ano, sempre que criticamos algum erro de representatividade ou preconceito contra mulheres na série, vem aquele argumento para defender:

“Ah, mas naquela época era assim mesmo”

Não é só com Game of Thrones que as pessoas usam esse argumento, qualquer fantasia medieval que tenha algum machismo em sua história é rapidamente justificado pelos fãs. Todos lembramos o quão machista foi a 5ª temporada e enquanto várias pessoas apontavam isso, outras vinham com esse argumento pra defender decisões absurdas dos produtores, então eu não fiquei nada surpresa de, já no primeiro episódio dessa nova temporada, alguém falar a mesma coisa.

De fato é importante que uma história tenha coerência com o seu tempo e espaço para funcionar. É óbvio que na ficção você pode fazer o que bem entender, mas a narrativa precisa se encaixar com o “onde” e “quando” da sua história. Por exemplo, em um filme que fala sobre a Joana D’Arc, seria esquisito colocar os personagens usando gírias e palavras dos tempos atuais.

O que as pessoas às vezes esquecem é que histórias como Game of Thrones e muitas outras ficções que os nerds amam não são relatos históricos, como um filme de Joana D’Arc, mas sim fantasia. O nome do gênero é fantasia medieval, portanto sim, vamos ter cavaleiros e lutas que vão remeter à nossa época medieval, mas é também um universo fantástico em que vão acontecer coisas que não necessariamente fazem parte da história medieval do mundo. Por isso que nessas histórias é comum encontrarmos magia de alguma forma, dragões e até outras raças como elfos, anões (edit: não estou falando aqui de pessoas com nanismo e sim da raça que aparece em muitos RPGs e histórias tipo Senhor dos Anéis), etc.

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3° Simpósio Global sobre Gênero e Mídia

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No dia 08 de março de 2016, no escritório do Google Brasil em São Paulo, aconteceu o 3° Simpósio Global sobre Gênero na Mídia, que é realizado pelo Instituto Geena Davis. Eu sabia muito pouco sobre o trabalho desse instituto e nem sabia que ia rolar o simpósio, só descobri uns dois dias antes, quando me falaram sobre e, sem saber muito sobre a programação, achei o assunto interessante e resolvi ir (obrigada Rebeca por ter me avisado).

Confesso que no começo, quando cheguei, fiquei desanimada e até considerei a hipótese de desistir e ir pra casa. A organização do evento não era das melhores, tinha um aglomerado de pessoas na recepção e várias que colocaram o nome na lista não puderam entrar de primeira porque o nome não aparecia no sistema, que foi o meu caso. O evento era pra começar às 15h e eu acabei chegando bem em cima da hora, mas ainda esperei até às 16h pra eles deixarem as pessoas com o nome “fora da lista” entrar. Isso também acabou fazendo com que o evento atrasasse.

Ainda bem que eu não desisti porque foram poucas falhas e muita coisa boa que eu fiquei muito feliz de poder ter presenciado. Talvez a minha única outra reclamação sobre o evento é que, durante o vídeo da Geena Davis, as pessoas que sentaram mais atrás não conseguiam ler a legenda. Muita gente lá, como eu, entendia inglês, mas não é o caso de todo mundo. O foco do evento era falar sobre gênero no audiovisual brasileiro, considerando a posição atual do país, é uma minoria privilegiada que consegue ser fluente em inglês ao ponto de entender algo sem legenda, por isso é importante a tradução. Por outro lado, já que não tínhamos fones com tradução simultânea, em todas as apresentações com convidados internacionais tínhamos alguém que traduzia o que foi dito depois, que foi um ponto bem positivo.

Caroline Heldman e João Feres Jr. apresentaram em seguida a pesquisa de Representação do Gênero na Mídia de Entretenimento Brasileira realizada pelo Instituto em 2014. O Brasil foi um dos países escolhidos por ser um dos dez com maior audiência cinematográfica e – pasmem – nós somos um dos melhores colocados nos rankings de mulheres trabalhando na indústria audiovisual. O Brasil é o terceiro colocado em número de mulheres diretoras (9,1%) e roteiristas (30,8%), além de ser o que possui maior número de mulheres produtoras (47,2%). Isso me faz pensar duas coisas: Primeiro que se eu achava a situação aqui ruim, imagina em outros lugares. Segundo, e até mais importante, a verdade é que eu nunca duvidei tanto que houvessem mulheres na área, o problema é que elas nunca possuem os mesmos espaços e oportunidades que homens, talvez por isso os números sejam tão chocantes. Além disso, todos os números ficam menores quando falamos de profissionais negros.

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Eu fui: Campus Party Brasil 2016

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Foto: Davi Valente/Campus Party Brasil

Semana passada aconteceu a Campus Party Brasil 2016, que é um evento de tecnologia que aborda vários temas como empreendedorismo, jogos, mídias sociais, inovação, etc. A última vez que fui nesse evento foi lá em 2013 e sempre tive contato com algumas pessoas que trabalhavam lá. Até o ano passado era a Futura que organizava o evento, mas como ela fechou, a MCI Brasil assumiu a organização.

Sempre gostei muito do esquema que a Campus Party funciona. O evento dá uma boa variedade de mesas, chama convidados bem interessantes e, mesmo que você não consiga uma cadeira para uma mesa específica, você ainda pode ver o debate do lado de fora, o que não exclui ninguém das atividades, ao contrário de outros eventos. O esquema de acampar, instalar o seu próprio computador lá e aproveitar a semana enquanto participa de uma mesa aqui ou ali também proporciona uma experiência única.

Agora, como fui em 2013, não pude deixar de notar algumas diferenças, umas boas e outras nem tanto.

A primeira coisa que me chamou atenção foram as mesas e o conteúdo delas. O que eu sempre gostei ainda estava lá: além dos campuseiros participarem de mesas com temáticas diferentes, mesmo quem não conseguia lugar ainda podia aproveitar, tudo era transmitido pelo streaming, então mesmo as mesas com horários difíceis podiam ser assistidas… Além disso, quando penso nos outros eventos, esse ano as mesas me pareciam mais inclusivas, tanto nos convidados quanto no conteúdo. Tivemos mulheres falando sobre cyberbullying, representação na cultura pop, ética nos jogos, etc. Também vi mulheres dando workshops de criação de personagens e dividindo mesas com homens para falar sobre jogos e maternidade/parternidade no mundo nerd.

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