Além da Máscara | Análise de V de Vingança

“Lembrai lembrai do 5 de novembro: A pólvora, a traição e o ardil. Por isso não vejo porque esquecer uma traição de pólvora tão vil”

Esse trecho é de uma rima feita sobre a Conspiração da Pólvora, que aconteceu em 1605 na Inglaterra. Guy Fawkes foi encontrado no subterrâneo da câmara dos lordes ingleses com barris de pólvora, pronto para explodir o lugar. O plano não deu certo e Fawkes, junto com seus aliados, foi torturado e morto por traição e tentativa de assassinato.

Mas eu não vou falar de Fawkes, eu vou falar do homem (ou ideia) que usou sua máscara nos quadrinhos em 1982 e depois nos cinemas em 2005. É, hoje, dia 5 de novembro, resolvi postar obre uma das minhas histórias favoritas de todos os tempos: V de Vingança.

Faz dez anos que o filme foi lançado e que eu vi o filme pela primeira vez. A história explodiu minha cabeça, eu me apaixonei completamente pelo que eu vi e mais tarde pelo que eu li. Evey Hammond deixa seu apartamento de noite, ignorando o toque de recolher (ela sai por motivos diferentes no quadrinho e no filme) e é abordada por policias. A história se passa em uma Londres totalitarista de um futuro não muito distante, então isso é algo pra se preocupar. Evey é salva por um estranho usando máscara de Fawkes, que se chama V, e a convida para ver o começo de seu plano para mudar Londres.

Muito já foi falado sobre essa história, várias críticas e análises tanto do livro quanto quadrinho, então pra não vir aqui e falar mais do mesmo, resolvi focar no simbolismo da máscara e toda a questão da desumanização de V.

Essa postagem contém spoilers do quadrinho e o filme.

V de Vingança tem alguns pontos principais que busca abordar: o poder das pessoas na revolução e também o próprio fator da vingança. Várias histórias fazem isso, mas o que faz, pra mim, com que essa se destaque é como os assuntos são tratados

Depois de ser preso e torturado, V escapa de Larkhill durante um acidente que matou inúmeras pessoas. Pelo que conseguimos entender, V foi severamente desfigurado e queimado, se escondendo atrás da máscara de Fawkes. Máscaras sempre carregaram um significado muito forte e que é crucial para entendermos algumas coisas sobre a história.

“Por trás dessa máscara há uma ideia, e ideias são à prova de balas”

Um governo totalitário tende a tratar as pessoas como pedaços de uma máquina que faz o resto funcionar, desumanizando a população e tirando seu poder de escolha ou de expressar opiniões. V pegou a pior parte: por fazer parte de alguma minoria, ele foi preso e torturado para o “bem maior”.

Depois que consegue escapar, V vai atrás das pessoas responsáveis pelo seu sofrimento para se vingar, ele humilha os que o humilharam e dá uma morte rápida aos que não tiveram tanta culpa. Inclusive é interessante ver como a médica de Larkhill foi morta com uma vacina enquanto dormia.

V reconstrói sua vida ao redor de uma ideia, simbolizada pela máscara que ele usa. Não é só fisicamente que V foi mudado para sempre, mas também por dentro. O foco de sua vida agora é mudar Londres ou pelo menos passar sua mensagem, mesmo que ele morra no processo.

Quando ele diz que atrás da máscara existe uma ideia, não é só uma frase legal pra mostrar que ele é imbatível, é uma frase triste que prova que não existe mais nada ali atrás que não seja aquela ideia, ou se existe alguma carne pouco importa. A pessoa que V foi pouco importa, ela morreu na cela 5 de Larkhill, o que sobrou foi o fantasma da vingança. V foi completamente desumanizado, ele diz várias vezes no quadrinho como ele é o diabo e está fazendo o trabalho do diabo. Já que ele não é mais uma pessoa ele pode facilmente sujar suas mãos das piores formas possíveis.

Sim, V é colocado como o herói da história, mas se avaliarmos suas ações, mesmo que seja para um “bem maior”, os métodos são completamente duvidosos. Isso não lembra alguma coisa? Sim, é exatamente como o Adam Susan (ou Sutler, no filme), o ditador, faz as coisas. Para derrotar o governo, V precisa se destruir a ponto de se tornar exatamente o que odeia.

Porém V é um dos personagens mais interessantes da ficção (na minha humilde opinião) e não teria chegado nessa lista se fosse só um fantasma atrás de vingança. Por anos ele se viu como uma coisa, exatamente o que o governo molda as pessoas pra serem, ele aceitou e agiu para conseguir a vingança que tanto queria. Até que ele conhece Evey.

Aqui eu vou ter que dar pontos a mais para o quadrinho por não perder o simbolismo da coisa (apesar de entender a mudança no filme). Na versão do cinema, Evey está indo para um encontro quando é pega pelos policiais e V vai salvá-la. Não que V não tenha senso de justiça, mas isso não é exatamente algo que faz muito sentido com o seu personagem. No quadrinho, Evey sai de casa para tentar se prostituir já que precisa de dinheiro, ela vai se vender como objeto para o prazer de um desconhecido. V salva-lá nesse contexto faz mais sentido, ele sabe como é ser um objeto e não quer outra pessoa passando por isso.

É com Evey por perto que começamos a vez os aspectos humanos de V, que até o momento tinha se encarado como uma coisa por anos. V salva Evey e a leva para sua galeria, em parte para ajudá-la, mas pra mim parece que V estava tentando lidar com a própria solidão. V salva Evey de novo mais tarde quando ela é “presa” e torturada, porém é o próprio V que faz isso para “o seu próprio bem”. V sabe que Evey está envolvida nessa história completamente e tem medo do que pode acontecer com ela caso seja presa e torturada, então resolve ensinar algo para torná-la forte. Vamos frisar aqui que, novamente, seus métodos são totalmente fora do comum e ruins.

E aí surge um dos assuntos mais importantes da história e muitas vezes ignorado: A importância da integridade de alguém. No ponto em que V chegou, acredito que durante as torturas ele perdeu toda a integridade como ser humano. Ele admirou Valerie por ter mantido exatamente o que ele perdeu, mesmo morrendo no final. V não quer ver Evey perdendo sua integridade, então faz toda aquela encenação para que isso não aconteça.

Independente dele estar apaixonado ou não, V cria um carinho por Evey que é perigoso. Ter sentimentos é uma característica humana, sentimentos atrapalham nosso lado racional, podem nos guiar por caminhos que nunca escolheríamos se parássemos para pensar. V provavelmente temeu que aquilo que estava atrás da sua máscara não fosse mais só uma ideia, mas um ser humano que foi completamente destruído e privado de sua integridade. V não pode lidar com isso, depois de anos, tirar a máscara e se encarar no espelho, realmente ver o tamanho do estrago, assumir e voltar a ser uma pessoa é muito mais do que ele conseguiria lidar. Como Evey mesma diz, sempre há uma pessoa carregando a ideia, e por mais que ela tente, essa pessoa tem sentimentos e sangra como qualquer outra pessoa.

No final Evey “veste a máscara” e continua com o plano após a morte de V. Tudo dá certo, as pessoas ouvem a mensagem de V e pelo que dá pra entender, as coisas vão melhorar. Para a revolução acontecer, as pessoas precisaram perder parte de sua humanidade para lutar contra um governo que faz exatamente isso. Mas é nessa busca que muitos deles encontram sua integridade, seja V ao conhecer Evey, seja as pessoas comuns que perceberam o quão controladas eram e resolvem se juntar no 5 de novembro, seja Evey que precisou ser presa para se fortalecer.

“A anarquia possui duas faces: criador e destruidor. Os destruidores afundam impérios e com os destroços, os criadores fazem mundos melhores”

Talvez V soubesse que ele precisava assumir o papel de destruidor para que Evey e o resto da população fizessem o papel de criadores. Aí podemos pensar: Quanto de nós mesmos e do mundo precisamos destruir para conseguir criar algo melhor? Quantas pessoas precisam usar máscaras para que outras possam andar livres?

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2 comentários sobre “Além da Máscara | Análise de V de Vingança

  1. Eu simplesmente A-M-E-I o post, cada palavra. Eu amo essa história (tão atual), foi perfeitamente escrita em HQ’s posteriormente e gravada. Todo mundo deveria assistir, e se fazer uso desta máscara! Já assisti umas 7 vezes, e sempre choro é aplaudo no fim! Enfim, V te amo ! Lembrai o 5 de novembro ❤

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